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Dica Cinéfila: Moulin Rouge - Amor em Vermelho
Bem, este é meu primeiro post aqui no Poeira de Idéias. Gostaria de agradecer ao Rafael, por ter me convidado a participar do blog, ao Marcel e ao Luiz também, por terem concordado com a minha participação. Muito obrigada! Ok, mas vamos ao que interessa...
Sinopse: No início do século XX, Christian (Ewan McGregor), um jovem escritor que possui um dom para a poesia, enfrenta seu pai para poder se mudar para o bairro boêmio de Montmartre, em Paris. Lá ele recebe o apoio de Toulouse-Lautrec (John Leguizamo), que o ajuda a participar da vida social e cultural do local, que gira em torno do Moulin Rouge. Ao visitar o local, Christian logo se apaixona por Satine (Nicole Kidman), a mais bela cortesã de Paris e estrela maior do Moulin Rouge. Título Original: Moulin Rouge Gênero: Musical Tempo de Duração: 126 minutos Ano de Lançamento (EUA): 2001 Direção: Baz Luhrmann Comentário: Vibrante, exagerado, criativo, alucinante e diferente, Moulin Rouge é tudo isso, apesar da história ser um tanto “comum”. O diferencial é a forma como ela é mostrada, contada e... cantada. Anos antes de ser lançado, o gênero musical tinha perdido um pouco de sua popularidade, tornando o filme um desafio para o diretor Baz Luhrmann. A trama se passa no início do século XX, mas quem espera ouvir somente músicas antigas, com certeza se surpreenderá. Sim, há canções de Whitney Houston, Marilyn Monroe e Elton John, mas também nos deparamos com uma canção de U2 e coreografias eletrizantes com músicas de Madonna. A mistura tinha tudo para sair indigesta, mas foi totalmente o contrário, se tornou um sucesso que vale a pena ser conferido. Moulin Rouge encerra a trilogia “Cortina Vermelha”, de Baz Luhrmann, formada por Vem Dançar Comigo (1992) e Romeu + Julieta (1996).
Dica cinéfila do Poeira de Idéias
Sinopse: Um veterano da Guerra do Vietnã sem perspectivas convive com o submundo de Nova York enquanto trabalha como motorista de táxi pelas madrugadas. Dirigido por Martin Scorsese ( Os Bons Companheiros) e com Robert De Niro, Jodie Foster e Harvey Keitel no elenco. Recebeu 4 indicações ao Oscar - Título Original: Taxi Driver - Gênero: Drama - Tempo de Duração: 114 minutos - Ano de Lançamento (EUA): 1976 - Direção: Martin Scorcese
Comentário do blog: O protagonista Travis Bickle (vivido pelo ainda mocinho Robert De Niro) mostra muito bem como uma vida sem perspectivas, alienada, cercada pela violência típica das grandes cidades e marcada pelo indiferencismo da classe política às demandas da periferia, pode embrutecer o coração de um homem comum - muitas vezes ao ponto de levá-lo a praticar atos extremos. Travis incorpora em sua personalidade a violência presente no seio da sociedade norte-americana; inconscientemente, se rebela (não construtivamente, mas destrutivamente) contra o status quo, que o aprisiona em uma vida sem grandes emoções e sem direcionamento. O táxi (já que não é o motorista de taxi quem decide o caminho que ele mesmo irá seguir) metaforiza essa ausência de autocondução. Filme excelente e imperdível, o que há de melhor em Martin Scorcese!
Sinopse: Após deixar a cidade de Dogville, Grace e seu pai encontram uma fazenda onde ainda existe a escravatura, apesar dela ter sido abolida há tempos. Dirigido por Lars von Trier ( Dançando no Escuro) e com Bryce Dallas Howard, Willem Dafoe, Lauren Bacall, Danny Glover, Chloë Sevigny e Jeremy Davies no elenco - Título Original: Manderlay - Gênero: Drama - Tempo de Duração: 139 minutos - Ano de Lançamento (Dinamarca / Holanda / Inglaterra / Suécia / França / Alemanha): 2005 - Direção: Lars Von Trier
Comentário do blog: Um filme que capta excepcionalmente bem a psicologia da opressão. Mostra como o oprimido pode se tornar uma espécie de espelho do seu opressor, e como uma libertação no plano da história só pode se consolidar se acompanhada de uma libertação de cunho psicológico, isto é, capaz de superar o hábito da servidão. Mostra como a herança do escravismo norte-americano fez com que os escravizados, mesmo quando libertos, encontrassem dificuldades para exercer uma genuína liberdade - dificuldades decorrentes justamente dessa psicologia, que se constitui com a opressão e com seus conseqüentes males sociais. É o segundo filme de Lars Von Trier da sua trilogia EUA - Terra das Oportunidades, uma sátira à terra do Tio Sam.
Rafael Issa é graduando em Filosofia na Universidade de São Paulo (USP) e formado em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).
Nossa auto-crítica merece perdão (Dulce Critelli - Folha de São Paulo, 07/10/2004)
Outro dia, no carro ao lado do meu, uma mulher falava sozinha em voz alta. Ela parecia estar revivendo a discussão que tivera com alguém. Ainda que imaginando falar com outra pessoa, ela se revia e, portanto, falava consigo mesma.Também falo comigo em pensamento o tempo todo, como se eu fosse duas pessoas. Quando estou sozinha, torno-me interlocutora de mim mesma. Segundo Platão, quando os homens pensam, tornam-se "dois em um" e, assim duplicados, realizam o "diálogo sem som do pensamento". Ao pensar, nós nos dividimos e somos um companheiro e uma testemunha de nós mesmos. Voltamos a ser "um só" quando alguém chama a nossa atenção e passamos a falar com ele. Ou quando alguma coisa acontece e temos de nos ocupar com ela -enfim, quando temos de parar de pensar para agir. Mas, enquanto ninguém fala conosco, nem precisamos prestar atenção ao que fazemos, somos nós mesmos nosso principal interlocutor. Melhor, nossa principal companhia -uma companhia que sempre vê e julga o que fazemos, que sempre nos testemunha. E mais: uma companhia da qual jamais poderemos nos desfazer enquanto estivermos vivos -de fato, a única companhia cujas opiniões e julgamentos sobre nós mesmos nos influenciam e valem mais que tudo.Nós nos iludimos quando acreditamos que nos importamos mais com as críticas dos outros do que com as nossas próprias. Para que a opinião alheia nos afete, é preciso, primeiro, que concordemos com ela. Porém o que talvez nos leve a acreditar que nos importamos mais com o juízo dos outros sobre nós seja o fato de as opiniões alheias fazerem barulho e serem marcadas por caras e bocas. As opiniões alheias aparecem, enquanto as nossas próprias são silenciosas, são presenças discretas. E são tantos os conceitos que tecemos a nosso próprio respeito! Julgamo-nos fortes ou fracos, inteligentes, bonitos ou feios e ignorantes, bons ou maus, indiferentes, preguiçosos, batalhadores, teimosos, cheios de possibilidades ou destinados ao fracasso. "Nós nos iludimos quando acreditamos que nos importamos mais com as críticas dos outros do que com as nossas próprias. Para que a opinião alheia nos afete, é preciso, primeiro, que concordemos com ela" Formamos essas opiniões pensando no que fizemos e dissemos no passado. É assim que vamos acumulando tudo aquilo de que nos orgulhamos tanto quanto aquilo de que nos arrependemos e envergonhamos. São exatamente essas opiniões a nosso próprio respeito as que contam de verdade. Elas se tornam critérios por meio dos quais vigiamos nossas ações no presente e projetamos nossos comportamentos futuros. Os juízos que fazemos de nós mesmos formam imagens poderosas que impregnam nossa consciência. Normalmente, lançamos essa auto-imagem lá para adiante. São imagens de como gostaríamos de ser ou daquilo que esperamos de nós mesmos. Firmamos um compromisso com elas, que também é silencioso e, desde o presente, mesmo sem perceber, nós nos movemos incansavelmente na expectativa de sua realização. Elas se tornam as promessas que nós nos fazemos.Todavia nem sempre podemos cumprir essas promessas -especialmente quando nossa auto-imagem é projetada sobre um profundo desacordo com nossa realidade e com nossas possibilidades mais peculiares, quando ela se apóia no que julgamos ser o correto e o melhor, mas é alienada de nossa vida e singularidade. Sobra-nos, então, o sentimento de fracasso e de infelicidade. Michael Jackson é um exemplo extremo de indivíduo cuja auto-imagem é estrangeira de si mesma e que se impôs uma promessa inalcançável: um negro que faz de tudo para ser branco para ser quem ele nunca foi nem nunca poderá ser. Ele não se projeta uma imagem possível e singular, mas persegue uma fantasia.Fazemos o mesmo, ainda que sem querer. E nos maldizemos e nos punimos pelas promessas não cumpridas. Julgamo-nos incapazes e incompetentes. Sentimo-nos envergonhados. Aprisionamo-nos no círculo sem saída da culpa e da autocondenação. Mas ninguém está fadado a permanecer praticando o mal que descobre fazer para si mesmo pensando ter agido corretamente. Perseguimos a realização de fantasias que nos alienam de nós mesmos quando nos conhecemos mal, quando nos ouvimos e interpretamos mal. Nossa condição humana, entretanto, está dotada de um talento especial que nos desamarra de nossos erros e equívocos a qualquer tempo. E para o qual é sempre tempo. Esse talento está reconhecido nas palavras de Jesus de Nazaré: "Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem". Perdoando-nos por nos fazer promessas insensatas, podemos nos reconciliar com nós mesmos e estancar o "ruminoso" remorso e a incessante crítica que nos fazemos quando ficamos a sós conosco, expostos a nós mesmos e ao nosso próprio testemunho. Porém o perdão que podemos nos oferecer tem uma condição essencial: que saibamos quem somos e quem só nós mesmos podemos ser. Só apoiadas nesse saber é que as promessas que nos fazemos não nos lançarão outra vez no inferno do desacordo com nós mesmos. É exatamente o que o oráculo de Delfos diz a Sócrates quando este vai consultá-lo sobre seu destino: "Conhece-te a ti mesmo". Dulce Critelli é professora de filosofia da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP)
O preconceito contra a filosofia (e a filosofia contra o preconceito)
Todo universitário do curso de filosofia certamente já deve ter ouvido por aí (muito provavelmente de alguém que nunca passou nem perto de um livro de filosofia) algum comentário preconceituoso em relação ao seu objeto de estudo. As acusações mais freqüentes feitas explícita e implicitamente contra a filosofia são de que ela não faz sentido algum, é "esquisita", "viajante" e não tem utilidade social. Tirar esses preconceitos da cabeça de uma pessoa costuma ser missão quase impossível. Lecionar a disciplina no ensino médio, ainda mais difícil (se ensinar, de uma maneira geral, hoje em dia está muito complicado, imaginem ensinar filosofia). Resta então a tentativa de apontar os porquês desta resistência, e investigar se a filosofia é realmente inútil e, portanto, merecedora de tanto descrédito.
Um preconceito sempre tem origem social - em geral, numa violência social. O preconceito racial contra os negros, ainda hoje existente, nos serve como exemplo disto. Ele se origina durante o período escravista, na violenta relação entre o opressor branco e o escravo negro. Se torna preconceito de raça quando os brancos, vendo constantemente os negros numa posição socialmente subalterna, se esquecem do que um dia fizeram contra estes, perdendo de vista a genealogia desta desigualdade. E aí faz-se a distorção: se, por exemplo, boa parte dos negros moram em favelas e boa parte dos brancos possuem melhores condições de moradia, isso se deve pura e exclusivamente à uma questão de competência destes e incompetência daqueles. Eis o erro. A melhor forma de combater um preconceito, então, é expondo a sua raiz; porque se a escravidão for escancarada como a grande responsável pela difícil situação social de muitos negros hoje em dia, e é, cai por terra o argumento racista (se é que um argumento racista pode ser realmente considerado um argumento) de que o afro descendente seria, por predisposição genética, naturalmente "incapaz". Quando uma relação de opressão e violência é naturalizada, os indivíduos de temperamento menos reflexivo acabam aceitando a concepção, ilusória, de que seus preconceitos são opiniões inteiramente autônomas, livres e isentas de qualquer influência ideológica do meio. Hoje em dia muitos defendem o "direito democrático do achismo", e nesse sentido, no de que a livre opinião é um direito inalienável, não estão errados. Entretanto, poucos se dão ao trabalho de buscar embasamento para suas "verdades". Em outras palavras: poucos se dão ao trabalho de investigar se o que "eu acho" é uma opinião realmente minha ou, ao contrário, uma indução social. Isso não acontece por acaso, e tudo tem a ver com o atual espírito do mundo ocidental: o da defesa de uma democracia superficial, onde o discurso pró-liberdade encerra-se em si mesmo, sem que paremos para pensar como poderíamos usar os livres espaços de maneira mais qualitativa, e ainda, cegando às diversas formas de condicionamentos que permanecem existindo. O preconceito, portanto, não é nada mais do que o "achismo" em seu grau máximo de irreflexão, em alguns casos direcionado contra um grupo específico de pessoas. E aí, mesmo quando a legislação vigente tenta remar contra a maré de um preconceito qualquer (é o caso do preconceito racial, já que hoje, pela constituição, negros e brancos possuem o mesmo direito à liberdade, e igualmente submetido ao dever de seguir as leis do Estado), a discriminação ainda resiste. Algo semelhante acontece com a filosofia; embora a resolução do Conselho Nacional de Educação (de 2006) valorize a filosofia (já que a torna, ao lado da sociologia, disciplina obrigatória no ensino médio), a sociedade continua sem perceber sua utilidade social - uma utilidade que a lei já reconhece. Vivemos numa pós-modernidade calcada em valores pragmáticos, onde o ritmo de nossas vidas é extremamente acelerado; uma grande quantidade (e nem sempre muita qualidade) de informações circulam diante de nós. Sobra pouco tempo, disposição e até mesmo capacidade para pensar de modo mais profundo. Até porque, segundo o sociólogo francês Gilles Lipovestky (autor de livros que dissecam os tempos atuais, como A Era do Vazio e Felicidade Paradoxal), uma sociedade estruturada pela lógica do consumo requer dos indivíduos uma postura mais passional (direcionada ao ato impulsivo de consumir) e menos reflexiva.
A utilidade social da filosofia é justamente a de se contrapor à tudo isso, e representar um pedido de atenção e de calma numa contemporaneidade que se caracteriza pela dispersão e pelo corre-corre. É o que pensadores como, por exemplo, Mario Sérgio Cortella (professor da PUC-SP), Roberto Romano (professor da Unicamp) e Renato Janine Ribeiro (professor da USP), os três formados em filosofia, procuram fazer com suas palestras, livros e artigos em jornais e revistas. A filosofia questiona os juízos apressados. O filósofo é aquele que nos propõe o desafio de reexaminarmos nossos achismos - o que pode ser irritantemente difícil, incômodo, à medida em que o achismo não é uma construção reflexiva do indivíduo, mas sim uma opinião inconscientemente consumida numa sociedade que, nas palavras de José Miguel Wisnik, músico e professor de literatura brasileira da USP, tornou mercado até mesmo sua consciência moral. Nesse sentido, a filosofia se posiciona não apenas contra o preconceito direcionado à ela mesma, mas contra toda e qualquer espécie de preconceito que possa existir. Buscando conceituar via-reflexão, ela nega as pré-conceituações. Ao exigir de nós uma postura intelectual com a qual não estamos muito habituados, a filosofia sofre resistência - como sofreu em sua origem. Segundo diversos estudiosos, é com o filósofo grego Sócrates (469–399 a.C.) que efetivamente nasce a filosofia. E nasce não por meio de uma teoria. O primeiro grande filósofo da história da humanidade afirmou só saber que nada sabia (a sabedoria socrática consiste em conhecer sua própria ignorância), não escreveu uma única linha sequer e não apontou doutrina alguma. A filosofia pode - e deve - trazer a humildade de Sócrates para os dias de hoje, já que vivemos numa era onde o individualismo narcísico têm nos tornado cada dia mais arrogantes, menos conscientes de que "nada" sabemos e, assim, menos autocríticos com nossas concepções. Sócrates teve, portanto, uma atitude. Ao invés de escrever, preferiu caminhar pelas ruas de Atenas, onde vivia, dialogando com seus concidadãos, fazendo perguntas inesperadas e embaraçosas à estes, convidando-os à um exame aprofundado de suas opiniões. Por isso, muitos sentiram-se incomodados com o "moscardo dos atenienses". Denunciado por "não acreditar nos deuses da cidade" e por "corromper a juventude", acabou condenado à morte. Desde então, Sócrates vem sendo sistematicamente "assassinado" por todos aqueles que recusam-se a refletir. Sócrates
No livro VI de A República, uma das obras mais importantes da história da filosofia, o pensador grego Platão (428 ou 427-347 a.C.) - discípulo de Sócrates - afirma [1] que numa cidade desorganizada, onde o sistema educacional é ruim, os filósofos são considerados inúteis pelos demais membros da comunidade. Em contrapartida, num Estado bem estruturado, os filósofos possuem uma função central: governam a cidade. Obviamente que falar em "governo de filósofos" soa como um grande exagero. O que nos interessa aqui, contudo, é o sentido subjacente da tese platônica: a idéia de que a sociedade deve dirigir-se racionalmente, com sabedoria. A filosofia tem fundamentalmente um compromisso com a razão; mesmo quando se trata de criticar uma exacerbada valorização da razão (crítica que se constata em pensadores como Friedrich Nietzsche, David Hume etc), a racionalidade não se perde de vista. Mesmo quando pretende defender a existência de Deus, a filosofia busca justificativas racionais (é o caso de São Tomás de Aquino e muitos outros). Devidamente valorizada, tem uma grande utilidade social. Fosse isso mentira, a ditadura militar brasileira (1964-1985) - como toda ditadura, sempre preocupada em abortar toda via de reflexão profunda que possa conduzir os indivíduos rumo à um questionamento do status quo - não teria perseguido [2] justamente a "inútil" filosofia. Numa democracia, onde as opiniões circulam e fluem mais livremente, a filosofia pode ter, inclusive na escola, um papel de suma importância: estimular os homens à se libertarem de suas amarras internas. Amarras que, atreladas à discursos prontos e superficiais, nos impõem uma visão de mundo muito limitada.
[1] Platão faz do seu mestre, Sócrates, o principal personagem de A República, narrada em forma de diálogo. Portanto, "quem fala" sobre o tema em questão é o personagem Sócrates, que dialoga com outros personagens (Céfalo, Polemarco, Adimanto, Trasímaco, Gláucon...). É Sócrates quem, no diálogo, representa as idéias de Platão, autor da obra. [2] Com o golpe de 64, a filosofia e a sociologia foram banidas do ensino médio. Além disso, muitos professores universitários de filosofia foram perseguidos pelo regime militar; é o caso, por exemplo, do já falecido filósofo Bento Prado Jr., professor de filosofia (USP) de 1961 até 1969, quando - cassado pelo AI-5 - foi impedido de prosseguir lecionando. Dentre os estudantes universitários que, durante a ditadura, foram perseguidos pela repressão, muitos faziam filosofia. O frade dominicano Tito de Alencar, estudante de filosofia da USP, sofreu, na prisão, torturas das quais jamais se recuperou psicologicamente. Já exilado na França, mas ainda perturbado com a experiência, suicidou-se em 1974. Sua história é contada no livro Batismo de Sangue, de Frei Betto, que foi adaptada ao cinema. Vale ainda, para reiterar a tese de que a filosofia pode suscitar - naqueles que se dedicam à ela - uma postura crítica e combativa diante de toda e qualquer conjuntura opressiva, citar o confronto entre os estudantes de filosofia da USP e estudantes do Mackenzie, na rua Maria Antonia (03/10/1968). Enquanto aqueles se punham contra o regime militar, estes eram favoráveis à ele.
Dicas de leitura: O Declínio da Cultura Ocidental (Allan Bloom) e A Era do Vazio (Gilles Lipovetsky).
Rafael Issa é graduando em Filosofia na Universidade de São Paulo (USP) e formado em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).
Quando os certos estão errados
Diz a lenda que um feiticeiro, no intuito de destruir um reino, contaminou a água da população com uma poção que deixava louco quem a ingerisse. Naturalmente, os habitantes enlouqueceram, mas o rei e sua família não, pois tinham um poço particular em seu castelo. Tomado pela loucura, o povo passou a ver os decretos e ações do monarca como atos insanos, e decidiu depô-lo, usando a policia e o exército – que haviam tomado a mesma água contaminada – para isso. O rei não teve escolha e renunciaria, não fosse sua esposa a convencê-lo de que ambos deveriam também beber a água da loucura. O rei assentiu e assim fez, passando a dizer coisas sem sentido, como o resto dos súditos, que então o consideraram sábio e desistiram de depô-lo.
Essa parábola sobre a perda da sanidade tem um lado mais sutil. É a alegoria de um fenômeno social, onde renunciamos a razão pela aceitação. É o “raio-x” dos consensos, do inconsciente coletivo dissociado da realidade mas insistente em suas convicções; dos absurdos tornados normais e, em última instância, regras. Na raiz do processo, a busca pela "boa troca", a luta interna entre consciência e instinto tribal inerente a qualquer um de nós desde berço. No pólo oposto, a cegueira, a negação da consciência e a imposição dessa negação até que ela se confunda com a própria consciência, ou com a inconsciência, ou ambas. No reino da burrice, razão vira veneno e os razoáveis, parias.
Dia desses, a caminho do barbeiro, estou prestes a atravessar a rua quando sou quase atropelado por uma bicicleta na calçada, e o ciclista fica possesso porque não percebi sua aproximação, ou seja, não olhei para os dois lados antes de me manter na via de pedestres, visto que na atual conjuntura do bairro onde vivo, um ciclista têm prioridade sobre andantes em qualquer lugar, como também tem um motoqueiro, igualmente indignado quando transeuntes não lhes cedem espaço para trafegar pela calçada ou na passarela, onde motos nem deveriam circular. Mas as regras do jeitinho, de tão toleradas, viram regras de fato contra as regras da lei. Infratores se tornam vítimas e vice-versa, e, pior, com a condescendência das maiorias. Tivesse eu levantado a voz contra o ciclista, talvez acabasse como o pai de família espancado com uma barra de ferro por reclamar do motorista que quase o atropelou avançando um sinal vermelho, ou como a mulher cremada viva ao denunciar um ponto ilegal de motoristas de Kombi. Há, claro, nesses casos, além da coerção invisível de costumes que fazem o errado se achar certo no íntimo e ser amparado pelo consenso que nos faz pensar dez vezes (ou nem cogitar pensar) antes de conclamar o estado de direito teórico, a coerção pelo medo, extensão da anterior – o perigo de, quebrado o pacto invisível dos jeitinhos, a política de boa vizinhança entre cidadãos abrir espaço àquilo que está por trás: a lei do mais forte e do "você sabe com quem está falando", reais alicerces dos direitos civis que usam os direitos do papel como meio de legitimação.
É costume meu, ao embarcar numa das vans que trafegam pelo Rio de Janeiro, procurar o cinto de segurança dos bancos traseiros, cintos fabricados e adquiridos junto ao veículo pelo dono, e considerados vitais à integridade física do passageiro. Num país desenvolvido, colocá-los, na frente ou atrás, é uma extensão natural de se embarcar num carro. Aqui, se você pede ou procura as peças nos assentos posteriores de uma van, é visto como alienígena por motorista e demais ocupantes.
– Ah, cinto? Procura aí. Ninguém usa esse troço não, eu enrolo aí atrás (ou prendo com fita adesiva embaixo dos bancos, ou já os arranquei fora há muito tempo) porque o passageiro se incomoda com eles. Ninguém usa. Fica tranqüilo, parceiro. Ninguém aqui vai bater não.
Ouse fazer queixa e será, no mínimo, expulso do veículo, coisa que um dia me ocorreu sem que ao menos eu reclamasse de algo – o máximo que fiz foi perguntar pelos cintos, e o motorista se ofendeu "cheio de razão", mandando-me sair, afinal, "não mostrei confiança em sua habilidade no volante". Se o taxista aposta corrida na via expressa, não reclame, ou estará atentando contra a qualidade e a masculinidade do profissional, algo tão grave quanto matar uma vaca na Índia. O que são luxos como segurança diante de prerrogativas tão mais sérias?
Pense duas vezes também ao se indignar com o toco de cigarro aceso jogado pelo frentista no chão do posto de gasolina, ou quando Zezinho, amigo de João, "tomar a frente dele" na fila onde você mofou tanto tempo. Ambos conclamarão o direito dos costumes ante o óbvio fato de que estão errados, e irão às últimas conseqüências em suas convicções. No fim, poderá ter sido melhor fazer como os outros, calando-se, consentindo, ou, em última instância, tomando para si o ponto de vista do infrator, bebendo a água dos loucos para ter uma vida sã.
É evidente que essa questão vai além dos tipos de exemplo que dei. Estende-se a tudo e explica em grande parte porque erramos tanto apesar de avanços e lições humanitárias da história. Incoerências civis, sociais, políticas e ambientais inadmissíveis nos deixam perplexos por fora, embora comumente compactuemos "por dentro" com os mecanismos que as viabilizam; sem saber, sem querer ou sem querer saber, apenas seguindo o fluxo.
As lacunas no Congresso e ampliação de poderes do STF
Outro dia estava conversando com um colega meu sobre algumas situações vividas no mundo da política nestes últimos anos. Ele dizia: "Por que o presidente não faz isto? Por que ele não manda os caras fazerem? Ele é o presidente, oras!!!". Este tipo de discurso é comum em muitas pessoas e eu mesmo sou influenciado por ele em diversas ocasiões. Quando as coisas não saem da maneira como acreditamos que deviam sair quando o assunto é política, tendemos a "descer a lenha" no chefe do executivo, sem perceber que a Administração Federal é composta por três poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário) independentes e harmônicos entre si segundo a Constituição de 1988. Para se governar é necessário que exista uma confluência de idéias e interesses destes poderes. Infelizmente, uma situação inusitada envolvendo o Congresso Nacional (Lesgilativo) e o Supremo Tribunal Federal (Judiciário) tem ocorrido. O processos que envolvem as atividades legislativas são complexas, lentas e que, com o agravante de possuírem, entre senadores e deputados, pessoas sem a mínima condição, não tem dado conta de aprovar leis sobre os direitos fundamentais, causando como conseqüência uma ampliação de poder do Supremo Tribunal Federal, que precisa decidir sobre questões que não estão amparadas em lei, o que em minha opinião é extremamente negativo para a democracia brasileira, apesar da confiança e do respeito que possuo pelo STF. Segue abaixo matéria publicada no Jornal Folha de São Paulo do dia 03 de Maio de 2009 (Brasil - página A4). ----- // ----- OMISSÃO DO LEGISLATIVO DÁ ESPAÇO À 'SUPREMOCRACIA' LENTIDÃO NA APROVAÇÃO DE LEIS SOBRE DIREITOS FUNDAMNETAIS DIMINUÍ PODER DO CONGRESSO Especialistas analisam que atuação do STF pode causar prejuízo à democracia por alterar a responsabilidade constitucional de cada poder (Ana Flor e Flácio Ferreira) A revogação da Lei de Imprensa e o início do julgamento de ações sobre o sistema de saúde nacional, promovidos pelo STF (Supremo Tribunal Federal) na última semana, mostraram que a lentidão do Congresso em aprovar leis que regulamentem direitos fundamentais está custando ao Legislativo perda de poder. O vácuo criado pelos legilsadores vem permitindo ao STF ampliar cada vez mais sua esfera de atuação instituicional. Cidadãos têm procurado na Justiça a solução de problemas ou a garantia de direitos não guarnecidos em lei - cujos projetos muitas vezes estão empacados no Congresso por décadas. Foi o caso da Lei de Imprensa, criada em 1967 durante o regime militar. Após a Constituição de 1988, diversos projetos para modificar a lei foram propostos no Congresso, mas a decisão de revogar o texto legal só veio do STF na quinta-feira. Nem mesmo as questões de políticas públicas na área social estão fora do alcance do tribunal. Ante as dezenas de milhares de ações judiciais sobre o direito à saúde - principalmente de acesso a medicamentos - em trâmite no país, o STF resolveu decidir coletivamente os processos relativos ao tema e para isso está realizando audiências públicas . Os julgamentos do tribunal nessa área poderão ter grande repercussão no sistema de saúde do país. "Poder não admite vácuo", diz a professora do mestrado em direito da Universidade Estácio de Sá (RJ) e especialista em ativismo judiciário Vanice Lírio do Valle. Segundo ela, parece que o Legislativo prefere o "ônus da inércia" do que o ônus de desagradar parte do eleitorado com decisões polêmicas. Entre os assuntos controversos que estarão nos próximos meses na pauta do STF estão a união de pessoas do mesmo sexo e o aborto de fetos anencéfalos. A expectativa no STF é que o tema da união homoafetiva seja julgado até o final do ano, em um processo em trâmite na corte. Já a questão dos anencéfalos pode ser apreciada ainda neste semestre pelos ministros do tribunal. "Diante do comportamento do Legislativo, demorou [para o STF decidir tomar a frente em questões não abarcadas em lei]. O STF aguentou um bocado", diz Vanice do Valle. A corte já chegou a declarar expressamente a omissão do Legsilativo na elaboração de leis que estavam previstas pela Constituição Federal, como o caso do direito de greve dos servidores. Nessas situações o STF comunicou oficialmente o Congresso sobre as lacunas, mas os temas continuaram sem definição no Legislativo. Lacuna O próprio Legislativo já se manifestou sobre o assunto. Em março, um grupo de deputados federais, ao justificar um projeto de lei sobre união de pessoas do mesmo sexo, reconheceu que a "omissão legislativa gera profunda perplexidade no tecido social, sendo esta cotidianamente resolvida por via judicial", escrevem eles. Oscar Velhena Vieira, professor da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas, afirma que o país convive hoje com uma "supremocracia", uma vez que nos últimos anos o STF ampliou seu poder sobre as instâncias inferiores do Judiciário, e está atuando nas lacunas deixadas pelo Legislativo. "Com a omissão do Parlamento em tomar decisões sobre questões fundamentais e a perda da autoridade moral do Congresso, há uma expansão dos demais poderes", diz ele. "Tradicionalmente, no Brasil, essa expansão era do Executivo. A partir dos últimos quatro ou cinco anos, o Supremo passou a ser o poder que mais expande sua autoridade. Segundo o especialista, um dos problemas é a seletividade do STF sobre o que vai ou não ser objeto de análise. "Ou a corte entende que no vácuo do Lesgilativo ela tem que funcionar, ou ela não entende isso. Ela escolher 'aqui eu vou ser ativista e ali eu não vou ser' é preocupante, afirma Vanice do Valle. Efeito negativo Fábio Wanderley Reis, professor emérito da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), diz que a atuação do STF pode ter efeitos negativos a longo prazo. "Na omissão do Congresso, é melhor que o Judiciário atue para criar algum tipo de parâmetro legal. Porém, o desejável a longo prazo é que cada poder funcione adequadamente de acordo com o que se espera dele constitucionalmente", disse. Vanice alerta para os danos à democracia. "O Legislativo é um órgão com representação democrática. Mal ou bem, é no Legislativo que se estabelece o diálogo com a sociedade."
Era da informação
5+ lidas do Folha Online às 12:26 de 28/04/2009 1. . Xuxa diz que sua altura atrapalha na hora de achar um namorado 2. Mulher é internada com sintomas de gripe suína no Rio; Brasil monitora mais 12 casos 3. Em 1º show de porte, Mallu Magalhães mostra várias facetas 4. Zapping - Christiane Torloni nega advertência 5. Estabelecimentos comerciais foram fechados na Cidade do México; ouça relato
“Já passou o tempo em que o tempo não contava.O homem de hoje não cultiva o que não pode ser abreviado.”(Paul Valéry)
A internet causou uma grande transformação em todo o setor de mídia e entretenimento que, desde então, vem se aproveitando de seus benefícios e/ou aprendendo a lidar com seus revezes. De um lado a possibilidade de atingir um grande público e a extrema rapidez na troca de informações, de outro a facilidade que deu à pirataria e também a total incapacidade de ter qualquer controle sobre os seus conteúdos, facilitando a veiculação de materiais pornográficos, a organização de grupos fascistas, ações fraudulentas, dentre outros. Em outras palavras, o uso da internet fica a cargo do discernimento de cada usuário e, de um modo geral, não há ninguém que possa ser responsabilizado pelos seus conteúdos.
Para o jornalismo, em específico, que não lida senão com informações, o advento da internet significou apenas uma coisa: a concretização de um jornalismo “em tempo real”. Ou seja, um terremoto na China, uma ação da polícia federal brasileira no interior da Amazônia ou os resultados das eleições presidenciais na França são notícias que circulam no mundo inteiro tão logo acontecem. Isso acarreta tanto na queda da qualidade dos textos em geral, pois o que importa não é o desenvolvimento dele, mas sim a sua atualidade, quanto na “baixa qualidade” da informação em si, ou seja, sua veracidade e relevância pública e/ou política.
“A informação só tem valor no momento em que é nova. Ela só vive nesse momento, precisa entregar-se inteiramente a ele e sem perda de tempo tem que se explicar nele.” (Walter Benjamin, “O narrador”)
No entanto, não devemos ser tão ingênuos e acreditar que a única causa desta situação é a invenção da internet, esta, na verdade, apenas acelerou um processo que vem de longa data. Para Benjamin [no ensaio citado acima] a industrialização ocasionou no destaque da informação e, com isso, o declínio da narração. Enquanto a narração recorre ao miraculoso e traz saberes de terras distantes e da memória coletiva de um povo, dispondo de uma autoridade capaz de ecoar como um pacto formativo compartilhando sentidos e transformando o sujeito, a informação aspira à fidelidade e à universalidade, compartilha fatos explicados, mas que não são capazes de fazer sentido e transformar o sujeito e, de fato, são legadas ao esquecimento quando perdem o seu caráter de novidade.
Assim, a experiência é lentamente expulsa do discurso vivo e substituída pela novidade, ou pelo sensacionalismo, ou pela curiosidade insólita. De qualquer maneira o jornalismo atual parece ser incapaz de suscitar qualquer reflexão nos seus consumidores, pois ao trazer um fato pronto e acabado, assume muitas vezes um caráter unilateral e de falsa realidade. Embora com isso, se mostre assustadoramente eficaz em mobilizar opiniões e emoções em dada direção, atuando como verdadeiros “formadores de opiniões”.
“O ciclo infinito de idéias e ação
Infinita experiência, infinita invenção, Traz o saber do movimento, mas não da paz... Onde está a vida que perdemos vivendo? Onde está a sabedoria que perdermos no conhecimento? Onde está o conhecimento que perdemos na informação?” (T.S. Eliot, “The Rock”)
Psicologia - Freud e a religião
 Em tese apresentada no livro O Futuro de uma Ilusão (1927), Sigmund Freud - considerado o pai da psicanálise - afirma que a religião é uma ilusão fruto do inconsciente humano. Ou seja, a fé manifestada no homem que crê possuiria motivações psicológicas e, deste modo, poderia ser cientificamente explicada. Tal argumento é desenvolvido a partir da noção de mal-estar na civilização; de acordo com o pai da psicanálise, a sociedade civilizada impõe aos indivíduos, através de instituições e regulamentos, um alto grau de coerção e repressão dos instintos essencialmente antisociais e anticulturais. Freud acredita que esse fato psicológico tem importância decisiva para a civilização e descreve o que significaria a ausência dessa coerção instintual: " Se imaginarem suspensas as suas proibições — se, então, se pudesse tomar a mulher que se quisesse como objeto sexual; se fosse possível matar sem hesitação o rival ao amor dela ou qualquer pessoa que se colocasse no caminho, e se, também, se pudesse levar consigo qualquer dos pertences de outro homem sem pedir licença—, quão esplêndida, que sucessão de satisfações seria a vida! É verdade que logo nos deparamos com a primeira dificuldade: todos os outros têm exatamente os mesmos desejos que eu, e não me tratarão com mais consideração do que eu os trato. Assim, na realidade, só uma única pessoa se poderia tornar irrestritamente feliz através de uma tal remoção das restrições da civilização, e essa pessoa seria um tirano, um ditador, que se tivesse apoderado de todos os meios de poder. E mesmo ele teria todos os motivos para desejar que os outros observassem pelo menos um mandamento cultural: não matarás". As duas pulsões fundamentais descritas por Freud em suas últimas obras seriam o Eros (instinto erótico) e o Tanatos (pulsão de morte, violência e destruição).

A religiosidade teria uma explicação meramente psicológica? Freud acreditava que sim
Portanto, ao mesmo tempo em que reconhece a necessidade do homem - através da civilização - proteger-se dos perigos implícitos numa total liberação dos instintos, Freud constata que os indivíduos sentem com fardo os sacrifícios que a sociedade civilizada exige. Quanto mais a civilização se sofistica, mais o homem seria afastado de sua condição animal primordial e - conseqüentemente - mais ele sentiria-se desconfortável. O argumento é o de que inicia-se já na infância um processo de fortalecimento do super ego (aquela "vozinha interna" que nos diz "isso não pode"); o indivíduo se torna um ser moral-social por meio de um conjunto de normas que são internalizadas (processo que não ocorreria amplamente no caso dos neuróticos) e incluem diversos tipos de proibições. Ao estudar a religião, Freud utiliza o mesmo esquema interpretativo anteriormente usado para a compreensão das neuroses obsessivas que – assim como no caso da fé – seriam fruto da repressão instintual. Frustrado e inconscientemente ferido em sua auto-estima, o homem se consolaria com satisfações substitutivas – como, por exemplo, a criação artística e a religião, nas palavras de Freud uma espécie de “neurose obsessiva universal” da humanidade. Neste sentido, sua tese lembra a filosofia do pensador alemão Friedrich Nietzsche (a obra Quando Nietzsche Chorou, de Irvin D Yalom, faz, embora utilizando-se da ficção, uma aproximação entre os pensamentos de Freud e Nietzsche). Nietzsche também via a arte (ler o post A Arte na Visão de Friedrich Nietzsche) e a religião como uma "atividade compensatória", embora a primeira em sentido positivo e a segunda em sentido negativo. É justamente a partir da noção de "compensação" que Freud insere o fenômeno religioso. Incapaz de controlar totalmente a natureza que contra nós se ergue "majestosa, cruel e inexorável", o indivíduo reage: reproduz a idéia de Deus, para tornar tolerável o seu desamparo, como uma contraposição às vicissitudes e necessidades da vida cotidiana. Se Deus existe, é porque a vida serve à um propósito mais elevado (onde o bem é recompensado e o mal castigado) e tudo nesse mundo constituiria obra de uma inteligência suprema. Assim, a morte do indivíduo não significaria necessariamente sua extinção, mas sim o começo de uma existência superior. Freud (imagem à esquerda) avalia que a função psíquica e inconsciente da religião é "exorcizar os temores da natureza, reconciliar os homens com a crueldade do destino e compensá-los pelos sofrimentos e privações que a vida civilizada impõe". Da mesma forma que os sonhos, a religião serviria ao propósito de satisfação do desejo inconsciente; o desejo de proteção, calcado em um protótipo infantil. Neste sentido, a religião seria uma extensão do instinto de proteção que o indivíduo, na infância, nutre em relação aos seus pais. Este "anseio pelo pai" constituiria o fenômeno religioso e reproduziria na psique humana um deus paternal e misericordioso; instâncias inconscientes voltadas para a busca da segurança teriam iniciado um itinerário de antropomorfização dos processos naturalistas na vida psíquica do indivíduo (e conseqüentemente da coletividade). Freud exprime esta noção ao afirmar que “o homem não transforma as forças da natureza simplesmente em homens com quem possa ter relações análogas às que tem com seus semelhantes, o que não seria conforme à impressão deformante que tem dessas forças, mas confere a elas o caráter do pai, faz dela deuses”.
O pai da psicanálise afirma ainda que “as representações religiosas nasceram da mesma necessidade que gerou todas as outras conquistas da civilização, ou seja, da necessidade de defender-se contra a esmagadora "prepotência da natureza". Soma-se isso à um segundo motivo: "o desejo de corrigir as imperfeições, dolorosamente observadas, da civilização”. Em O que é religião?, o filósofo e educador Rubem Alves sintetiza o posicionamento de Freud ao argumentar que “religiões são ilusões, realizações dos mais velhos, mais fortes e mais urgentes desejos da humanidade. Se elas são fortes é porque os desejos que elas representam o são. E que desejos são esses? Desejos que nascem da necessidade que têm os homens de se defender da força esmagadoramente superior da natureza. Eles perceberam que, se fossem capazes de visualizar, em meio a essa realidade fria e sinistra que os enchia de ansiedade, um coração que sentia e pulsava como o deles, o problema estaria resolvido. Deus é esse coração fictício que o desejo inventou, para tornar o universo humano e amigo. Então a própria morte perdeu o seu caráter ameaçador". Assim, a religião é identificada como ilusão derivada de um sentimento originário e oceânico vivido pela humanidade inteira. Convém explicar o que Freud entendia pelo termo "ilusão"; para o pai da psicanálise, ilusão não significa erro, opinião equivocada que necessariamente contradiga a realidade, mas sim algo que provém do desejo humano. A partir daí, é possível dizer que Freud estava muito mais preocupado em mostrar que a religião é fruto de uma vontade humana, do que propriamente avaliar o valor de verdade das doutrinas religiosas. A psicanálise não avalia a experiência da fé com base nos fundamentos da teologia. Não se indaga a respeito da verdade divina; busca, isto sim, investigar as constantes psicológicas da religiosidade. Deseja compreender que mecanismos psíquicos estimulam o indivíduo – em sua interioridade subjetiva – a crer e, somente a partir daí, interpreta a religião como fenômeno cultural de uma coletividade. Para Freud, o "futuro desta ilusão" seria o seu fim; com o desenvolvimento da ciência, acreditava, pouco a pouco os homens deixariam de lado quaisquer aspirações de cunho teológico. Rafael Issa é graduando em Filosofia na Universidade de São Paulo (USP) e formado em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).
Racismo no Brasil: a integração interrompida
Quando confrontados com o dilema das cotas raciais, muitos brasileiros favoráveis às ações afirmativas alegam que estas não podem se fundamentar na cor da pele ou em qualquer fator hereditário, mas unicamente nas origens ou condições sociais do postulante, visto que a razão de termos, cento e vinte anos após o fim da escravidão, poucos negros nos setores privilegiados da sociedade se deve menos a barreiras raciais do que sociais, além do óbvio fato de que muitos brancos também fulguram na base do sistema desigual e, por conseguinte, merecem a mesma atenção e acesso a atalhos. Até escrevi um artigo criticando a tentativa de se importar visões e iniciativas estrangeiras inadequadas à essência do Brasil, e quem me conhece sabe que sou da opinião de que o foco das ações afirmativas nacionais precisa ser mais social do que racial. Mas, certos ou não, os defensores das cotas raciais ganharam um novo argumento. Se antes eles pouco tinham além da escravidão para justificar seu clamor por compensações étnicas no sistema de ensino, a exumação de fatos históricos pouco conhecidos no presente acaba de lhes conferir outro estandarte. Por mais desprezíveis e danosos que tenham sido trezentos anos de trabalho escravo, é provável que, sozinho, seu legado não constituísse empecilho grande o bastante para impedir uma integração acadêmica que se desenhava entre brancos e negros anos antes da abolição suceder. Uma miscigenação dos setores "letrados" da sociedade que nos daria um Brasil diferente do que temos, caso seguisse seu curso natural. Um Brasil mais pluralista em suas elites. Por vezes, a pedagoga Maria Lúcia Rodrigues foi chamada de louca ao afirmar que boa parte de nossas escolas públicas do início do século XX tinha um número significativo de professores negros, como também diretores e quase tantos alunos negros quanto brancos, pois dizia o consenso que candidatos negros só concursaram para o magistério a partir dos anos 60. Mas Maria Lúcia conseguiu suas evidências e provou ter razão. Os documentos e fotos que juntou por uma década remontam a identidade escolar de nossa jovem república e seu embranquecimento ao longo da primeira metade do século XX. Um retrocesso que plantou as sementes da atual carência de negros em nossas classes privilegiadas. Parece loucura, não? Intelectuais brasileiros, contaminados pela eugenia que invadiu a Europa pós-darwinista, convenceram legisladores de que, para ser grande, nosso país precisaria se embranquecer, e teve início um projeto de engenharia social para o futuro. Incentivar a imigração européia e afastar os negros das posições de prestígio, especialmente no meio acadêmico. Professores tiveram sua aposentadoria apressada enquanto medidas como a reforma educacional do Rio de Janeiro de 1927 buscaram, sob pretextos que discriminavam os mais humildes, diminuir gradativamente a proporção negra entre novos alunos e professores. Uma "anticota" implementada de norte a sul do país por três décadas que foi mais eficiente em afastar os negros dos altos escalões sociais para as eras seguintes do que três séculos de escravidão. O trabalho de Maria Lúcia é importante porque desfaz o mito de que nossas disparidades étnicas na distribuição entre as classes se devem unicamente a entraves históricos de cunho social, quando pensados no período republicano. Entraves sociais explicam o motivo de hoje poucos terem tanto e tantos, tão pouco, mas não se bastam para entendermos a ínfima representatividade negra entre os "poucos". A peça adicionada por Maria Lúcia a nosso quebra-cabeça histórico-cultural torna este mosaico um pouco mais coerente, além de auxiliar o trabalho de quem pensa as contramedidas que corrigirão esses desequilíbrios, incluindo ações afirmativas. A escassez de uma elite negra no Brasil é um tremendo instrumento de reforço às associações psicológicas que tornam o cidadão mais bem intencionado um sujeito racista, como também torna racista a própria vítima. Vale lembrar que o cerne deste mal está mais no código do que na pessoa, cujo recurso contra um sistema pernicioso é rejeitá-lo, coisa difícil de fazer, pois os códigos também são extensões dos indivíduos e os conectam entre si e com seu habitat. Maria Lúcia Rodrigues é professora da Universidade Federal do Mato Grosso e as 54 fotografias que reuniu sobre a participação do negro na educação da primeira metade do século XX se encontram no livro "A cor da Escola - Imagens da primeira república", como também foram tema de uma reportagem recente realizada pelo jornal "O Globo". Luiz Mendes Junior é formado em Comunicação Social. Ele escreve para a Revista Sina e o blog "notícias do front 3".
O Mito da Hospitalidade
Segue abaixo parte do texto "O Mito da Hospitalidade", escrito pelo teólogo Leonardo Boff que tem como referência neste escrito a obra "As Metamorfoses", do poeta romano Ovídio (43 a.C. - 37 d.C).
-- // -- "Júpiter, o deus criador e seu filho Hermes, quiseram saber como andava o espírito de hospitalidade entre os humanos. Travestiram-se de pobres e começaram a peregrinar pelo mundo afora. Foram maltratados por uns, expulsos por outros. Depois de muito peregrinar tiveram que cruzar por uma terra cujos habitantes eram conhecidos por sua rudeza. as divindades sequer pensavam em pedir hospitalidade. Mas à noitinha passaram por uma choupana onde moraba um casal de velhinhos, Báucis e Filêmon. Qual não foi a supresa, quando Filêmon saiu à porta e sorridente foi logo dizendo: Forasteiros, vocês devem estar exaustos e com fome. Entrem. A casa é pobre mas aberta para acolhê-los. Báucis ofereceu-lhes logo um assento enquanto Filêmon acendeu o fogo. Báucis esquentou água e começou a lavar os pés dos andarilhos. Com os legumes e um pouco de toucinho fizeram uma soupa suculenta. Por fim, ofereceram a própria cama para que os forasteiros pudessem descansar. Nisso sobreveio grande tempestade. As águas subiram rapidamente e ameaçavam a região. Quando Báucis e Filêmon quiseram socorrer os vizinhos, ocorreu grande transformação: a tempestade parou e de repente a pequena choupana foi transformada num luzidio templo dourado. Báucis e Filêmon ficaram estarrecidos. Júpiter foi logo dizendo: por causa da hospitalidade quero atender um pedido que fizerem. Báucis e Filêmon disseram unissonamente: o nosso desejo é servir-vos nesse templo por toda a vida. Hermes não ficou atrás: quero que façam também um pedido. E eles como se tivessem combinado responderam: depois de tanto amor gostaríamos de morrer juntos. Seus pedidos foram atendidos. Um dia, quando estavam senados no átrio, de repente Filêmon viu que o corpo de Báucis se revestia de folhagens floridas e que o corpo de Filêmon também se cobria de folhas verdes. Mal puderam dizer adeus um ao outro. Filêmon foi transformado em um enorme carvalho e Báucis numa frondosa tília. As copas e os galhos s entrelaçaram ao alto. E assim abraçados ficaram unidospara sempre. Os velhos aé hoje repetem a lição: quem hospeda forasteiros, hospeda a Deus." -- // -- Leonardo Boff, em seu livro "Hospitalidade: Direito & Dever de todos", diz que devemos desenvolver determinadas virtudes para que um novo mundo seja possível, para que uma nova globalização seja estruturada. Todos vivem na mesma "casa" e são responsáveis por cuidar dela. Qual será o momento da superação das imperfeições que leva ao desenvolvimento de tais virtudes? Lembro-me de um professor de história que tive, que dizia que uma das estruturas que mais demoram para ser alteradas em uma sociedade são aquelas relacionadas às crenças e comportamentos adotados pelas pessoas. Até bem pouco tempo atrás, acreditava-se que o 11/09/2001 seria a data que marcaria o início de um novo momento, porém a certeza do engano veio há alguns meses atrás com a eclosão da crise econômica mundial. É fato, o processo de transformação dos povos requer paciência. Basta saber se o planeta aguentará até lá... Marcel Tutui Gianotti é autodidata de temas relacionados à sociedade, economia e política.
Um pouco de Filosofia - A interioridade no pensamento de Santo Agostinho
Noli foras ire, in teipsum redi: in interiore homine habitat veritas ("Não vás fora, entra em ti mesmo: no homem interior habita a verdade"). (Santo Agostinho)
Santo Agostinho (Aurelius Augustinus, 354-430 d.C.) - bispo de Hipona durante trinta e quatro anos e mais importante filósofo do período patrístico - foi um mestre da interioridade. Sua filosofia insiste na importância do homem interior, do voltar-se para si mesmo - na aposta de que a felicidade não pode ser encontrada no âmbito da exterioridade, e sim na esfera da intimidade. Ou seja, ao inspecionar o seu próprio espírito, o homem transitaria do exterior para o interior onde descobriria - na profundidade do Eu - o Absoluto, ou seja, Deus, verdade íntima em cada indivíduo. Neste sentido, Deus só poderia ser realmente encontrado através de um itinerário introspectivo. Observa-se então a influência que o pensamento de Platão e sobretudo do neoplatônico Plotino, pensadores da antiguidade, tiveram na filosofia agostiniana. Para Platão existe um mundo inteligível (de idéias perfeitas) que é o responsável pela existência do mundo sensível (esse em que nós vivemos, onde estão as cópias imperfeitas das idéias perfeitas). Através de uma dialética ascendente o homem - anteriormente preso "à caverna", aos "enganos dos sentidos" - pode se aproximar das idéias perfeitas, tornar-se um filósofo e "se salvar"; isto é Platão. Já para Plotino, o mundo inteligível se compõe de três partes: o Uno (realidade perfeita, inefável, imutável), o Nous (inteligência) e a Psique (Alma). O Uno gera o Nous, que gera a Psique, que gera o mundo sensível, tal como nós o conhecemos. Cada etapa deste processo - emanativo - é denominado hipóstase. A matéria, privada do bem, é má. Se tudo veio do Uno, tudo deve retornar ao Uno; isto é Plotino. O que há, portanto, na filosofia platônica, neoplatônica e agostiniana é uma hierarquização da existência pela divisão entre mundo superior e mundo material, a noção de que a verdade não pode ser encontrada simplesmente na relação homem-mundo exterior, e a idéia de que o ser humano tende a retornar para aquilo que lhe originou. Platão - influenciado por Pitágoras - acredita na teoria da metempsicose (reencarnação, transmigração da alma de um corpo para outro); antes de reencarnar, isto é, entre uma vida e outra, a alma (imortal) teria a oportunidade de contemplar as idéias perfeitas no mundo inteligível, ideal. Ao reencarnar, ao misturar-se com um corpo que acaba de nascer, a alma esquece temporariamente as idéias apreendidas anteriormente na esfera superior; assim, a percepção das coisas sensíveis seria um estímulo à reevocação das idéias inatas. Isto é importante: o mundo exterior para Platão se apresenta como o primeiro passo rumo à verdade, e não como verdade pronta; a verdade - plena - não está fora do homem, e sim dentro do homem. Tanto é que, ainda de acordo com o platonismo, o homem tem uma alma onisciente, que tudo sabe, mas ela "se esquece daquilo que sabe"; para Agostinho, Deus é verdade íntima no homem, fundamento primeiro e último do ser.

É preciso, entretanto, salientar as diferenças fundamentais entre Santo Agostinho e seus antecessores. Deus, para Plotino, não cria o mundo - ele emana; a idéia aqui é de que a partir de Deus vão se originando sucessivos graus de realidade; o mundo sensível constituiria a mais imperfeita dentre essas realidades que são emanadas inicialmente de uma realidade primeira e perfeita. O Deus de Plotino é o Uno, e o Deus de Platão é o Demiurgo, e eles são deuses impessoais, diferentes do Deus de Agostinho, que é cristão, antropomorfizado, pessoal, misericordioso, que conscientemente cria o mundo, o homem e o tempo. Plotino recebe influências do cristianismo, mas não é um cristão de fato, como Santo Agostinho o é. O conceito de criação é alheio ao pensamento grego antigo. De acordo com Platão e Plotino, o mundo sensível é resultado da emanação de uma matéria informe já existente (e que sempre existiu; isto é: nunca houve nada porque para o grego nada vem do nada). O Deus do Bíblia cristã cria - este sim do nada, tal como está escrito no Gênesis - uma nova realidade. E é neste sentido que a filosofia de Santo Agostinho pode ser considerada um divisor de águas na história da humanidade, pois marca a passagem entre a forma de pensar dos gregos antigos para a forma de pensar dos cristãos. Cria-se, portanto, a noção de criação. Agostinho viveu na chamada antiguidade tardia (fim do século IV, começo do século V), de modo que chegou a ver o mundo com olhos pagãos (antes de se converter ao cristianismo foi um pagão); por esta razão é possível dizer que foi, de certa maneira, o último homem antigo e - ao mesmo tempo - o primeiro homem medieval; por um lado agrega no seu pensamento aspectos da filosofia antiga e por outro vai separando-se dela.  Há na filosofia agostiniana uma relação de harmonia entre Fé e Razão; a fé não pretende amaldiçoar a razão, a razão não pretende desmentir a fé. Seu pensamento propõe uma filosofia teológica e uma teologia filosófica. Um homem não poderia crer se fosse um animal irracional - logo, é a razão que possibilita e explica a fé. Assim, a fé - para o bispo de Hipona - é também razão; não é mera aposta conveniente (como em Pascal) ou um mero lançar-se (como em Kierkegaard). Para Agostinho existem duas Razões: uma precede a fé, e a outra procede a fé. Ou seja, a fé se encontra no meio. A primeira razão (de abertura) - que ainda não foi iluminada pela fé - dá indicíos de que vale a pena crer. A segunda razão - já iluminada pela fé - busca entender aquilo no que crê. A razão possibilita o livre-arbítrio. Na filosofia agostiniana liberdade é o uso correto do livre-arbítrio, ou seja, nas palavras de Santo Anselmo: "querer o que se deve". Observa-se então uma diferença em relação ao conceito moderno, onde liberdade tem o significado de autonomia individual . Ao dizer " Ama e faz o que tu quiseres. Se calares, calarás com amor; se gritares, gritarás com amor; se corrigires, corrigirás com amor; se perdoares, perdoarás com amor. Se tiveres o amor enraizado em ti, nenhuma coisa senão o amor serão os teus frutos", Agostinho anuncia uma liberdade necessariamente presa, atrelada ao amor - condição, para ele, imprescindível na fuga do pecado. Toda forma de liberdade que não tem o amor como pressuposto é, na metafísica agostiniana, escravidão. O uso equivocado do livre-arbítrio é a origem do mal no mundo - mas este mal não existe em si mesmo e sim como carência de bem; o mal é privação, depende da corrupção do bem para se constituir como mal. Adão e Eva não escolheram entre o bem e o mal (não há Sumo Mal), mas sim entre o Sumo Bem (a vontade de Deus) e os bens inferiores (o fruto proibido). Se Deus é verdade íntima no homem, ao se afastar de Deus, o homem se afasta de si mesmo; ao se esquecer de Deus, se esquece de si mesmo. É quando o homem cai em dispersão e vive angustiado. Entretanto, Agostinho alerta que esse afastamento nunca se dá de maneira completa; se um homem ainda existe, é porque Deus continua sustentando o seu ser - e aí reside a esperança. A reaproximação com Deus se daria através de uma trajetória inversa: ao invés de primeiro procurar a si mesmo, dizer "quem eu sou", e somente depois procurar Deus e dizer "quem é Deus", o homem teria de primeiro procurar Deus e dizer "quem é Deus". Para Agostinho, Deus não se afasta do homem, mas o homem é quem se afasta de Deus. Portanto, acredita que se a criatura - despida de orgulho - for capaz de dizer quem é o seu Criador, o Criador poderá - por fim - pegar esta criatura no colo e dizer quem ela é.
Sero te amavi, pulchritudo tam antiqua et tam nova ("Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova"). (Santo Agostinho)
* Ficam como dicas de leitura, além - obviamente - das obras do próprio Agostinho, os livros Introdução ao Estudo de Santo Agostinho, de Étienne Gilson (já falecido filósofo francês), A razão em exercício - Estudos sobre a filosofia de Agostinho, de Moacyr Ayres Novaes Filho (professor de Filosofia da USP), e A Relação entre Deus e o Mal Segundo Santo Agostinho, de Joel Gracioso (professor de Filosofia do UNIFAI).
Rafael Issa é graduando em Filosofia na Universidade de São Paulo (USP) e formado em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).
Good morning good morning
“O fim está no começo e no entanto continua-se.”
Nada a fazer. Não por acaso, esta é a fala de abertura da peça "Esperando Godot" do escritor irlandês, Samuel Beckett. Escrita em 1949, nos anos do pós-guerra, em Paris é considerada por muitos uma reviravolta no teatro europeu. A crueza do cenário, composto apenas por uma árvore sem folhas, a falta de ação dos personagens, o rompimento da barreira entre a cena e o público, como, por exemplo, quando Estragon, junto à platéia, diz “Esplêndido espetáculo”, longos silêncios, recursos amplamente explorados pelas encenações atuais, eram ainda novidade quando Beckett os usa. A história da peça é curta e simples, Vladimir (Didi) e Estragon (Gogô) esperam por Godot, personagem que, no entanto, nunca aparece. E o que acontece, então? Nada. “Não há nada pra fazer”, como se fala durante a peça. Os personagens matam o tempo, esperando que a noite caia para que eles possam ir embora e voltar novamente na tarde seguinte, numa eterna espera a Godot, que, supostamente, pode lhes garantir o futuro. Em determinado momento (tanto no primeiro quanto no segundo ato) encontram Pozzo e Lucky, que lhes oferecem uma distração momentânea, “Quase fomos a pique. Reforços, finalmente!”, como diz Vladimir no segundo ato. 
Os personagens parecem mergulhados em um tempo suspenso, fora da História, embora hajam esparsas menções a anos e acontecimentos passados, eles próprios são dotados de uma memória deficiente, excetuando-se Vladimir, que, por vezes, parece o único realmente lúcido. Sem passado e sem futuro garantido, os personagens ficam abandonados, à deriva, em um eterno tempo presente, condenados à espera de algo que nunca se completa. Daí a estrutura repetitiva da narração, repetindo a mesma fala, os mesmos diálogos, os mesmos tiques nervosos, sem que os personagens percebam, necessariamente.
“Estamos sempre achando alguma coisa, não é, Didi, para dar a impressão de que existimos?”
Em outra peça de Beckett, "Fim de Partida", são usados os mesmos recursos de suspensão espaço-temporal, de repetição, abordando e aprofundando as relações de domínio apenas esboçadas em "Esperando Godot" por Pozzo e Lucky. Hamm, personagem literalmente central de "Fim de Partida", pois insiste que coloquem sua cadeira de rodas exatamente no meio da sala, atua como o soberano de um reino de destroços. Aqui o desolamento que atinge os personagens é inclusive físico, os pais de Hamm têm as pernas amputadas e ficam dentro de latões, Hamm, por sua vez, é cego e não pode andar e Clov, que é o único personagem dotado de mobilidade física, não pode se sentar. Enquanto que em "Esperando Godot" podemos recorrer a uma esperança débil em meio à espera, em "Fim de Partida" ela já foi totalmente esvaída e resta aos personagens esperarem pelo fim, “Acabou, está acabado, quase acabando, deve estar quase acabando” diz Clov logo no início da peça.
Embora em ambas as peças a situação trágica dos personagens seja apresentada vestida de trajes cômicos, Fim de partida é um pouco mais seca e cruel do que a outra. A dupla Didi e Gogô oferece uma dinâmica perfeita e divertida, oferecendo muitos momentos de riso, no entanto a natureza desolada nunca é deixada de lado. Aqui vale a pena observar que nas duas peças podemos tecer esquemas de dupla: Didi e Gogô, Pozzo e Lucky, Hamm e Clov, Nagg e Nell. Todas essas parecem “atreladas” a si, por bem e por mal. Como Vladimir diz para Estragon a certa altura, este é sua última esperança, sem ele estaria perdido e, ao mesmo tempo, ambos dizem se sentir melhor quando se separam. Estragon está a todo momento dizendo que vai deixá-lo, assim como Clov faz a Hamm. Vladimir e Estragon acham prudente não se enforcar, porque o galho da árvore não aguentaria o peso dos dois e só um morreria. As relações humanas são, portanto bastante dúbias, ora se assemelham ao inferno sartreano da peça "Entre Quatro Paredes", na qual os personagens estão condenados à eterna vivência com o outro, ora são a salvação, o motivo de sobrevivência do outro. Às vezes parecem meras associações, que os salvam, ao menos, da solidão e do desespero completo, pois não há entre nenhuma dessas duplas uma relação forte de afeto, muitas vezes não prestam atenção no que o outro diz, Vladimir nunca deixa Estragon dormir sossegado, pois se sente sozinho, Hamm está sempre chamando e dando ordens a Clov, que sempre lhe obedece, se perguntando mais de uma vez por que o faz. A diferença é que Vladimir e Estragon ainda têm alguns momentos de afeto, quando se abraçam, quando falam com ternura um com o outro, apesar de esses momentos serem poucos e quebrarem-se sempre, enquanto que em "Fim de Partida" os personagens são tocados por um ambiente mais austero, não se tocam, não se apiedam com o outro. O que parece, na verdade, ligar todos esses pares é uma relação de necessidade, às vezes até mais explícita, quando, por exemplo, Pozzo fica cego e necessita que Lucky o guie. Antes de abordar como tema o tédio, o desespero, a rotina repetitiva que não se percebe como tal, a solidão, a espera, a incapacidade de mudança, Beckett os realiza concretamente como peças teatrais. "Esperando Godot" é a própria espera, a própria repetição, o tédio e a monotonia são o alicerce, a estrutura pela qual a peça se realiza. O segundo ato, em que o leitor já está familiarizado com a situação, parece menos natural do que o primeiro, a esse ponto os próprios personagens se encontram mais irritados, os diálogos parecem mais mecânicos e cansativos e fica cada vez mais difícil preencher o tempo. As situações do primeiro ato se repetem com algumas variações e os personagens, tirando Vladimir, não só não aprenderam nada, como não lembram de nada acontecido no dia anterior. A única esperança em meio à incerteza é a espera por Godot.
"Estamos no lugar e hora marcados e ponto final. Não somos santos, mas estamos no lugar e hora marcados. Quantos podem dizer o mesmo?".
É até irônico a atualidade que a peça carrega depois de quase 60 anos de existência. Será que nós mesmos, assim como Didi e Gogô, não estamos nos repetindo eternamente desde então? Não é exatamente essa mesma situação de desamparo que ela quer denunciar? O automatismo, a eterna volta do mesmo, a total falta de um estímulo ou um ideal que garanta, senão a quebra dessas estruturas repetitivas, ao menos algum sentido que perpasse esse aqui-agora monótomo e sem razão de ser. No teatro de Beckett experienciamos o extremo do absurdo, da solidão e do desespero a que a sociedade nos levou em busca de suas satisfações e somos deixados talvez não tão melhores e nem tão distantes dos personagens, mas com uma vantagem: a possibilidade de um despertar para a reflexão e a visão crítica para que talvez algum dia possamos romper com essa situação.
"Façamos alguma coisa enquanto há chance! Não é todo dia que precisam de nós. Ainda que, a bem da verdade, não seja exatamente de nós. Outros dariam conta do recado, tão bem quanto, senão melhor. O apelo que ouvimos se dirige antes toda a humanidade. Mas neste lugar, neste momento, a humanidade somos nós, queiramos ou não. Aproveitemos enquanto é tempo".
Watchmen e o triunfo do simulacro
"Infelizmente, a idiotice típica de nossa época não se diferencia mais da inteligência. Confunde-se com ela. Não é mais inculta; ao contrário, é superinformada, possui a mesma vivacidade reflexa da inteligência artificial. É o grau xerox da estupidez que se confunde com o grau xerox da inteligência. " (Jean Baudrillard, Cool Memories)
Um dos eventos que me chamaram atenção esse mês foi a aceitação de público e crítica obtida pelo filme Watchmen, adaptação cinematográfica de uma série de quadrinhos publicada em 1986, escrita por Alan Moore e desenhada por Dave Gibbons, e cujo sucesso se deveu, entre vários fatores, ao modo como aprofundou e enriqueceu a temática dos super-heróis, conferindo novos níveis de acepção a um universo até então artificial e superficial. A série era repleta de metáforas políticas, mergulhos sociais e psicológicos a partir de personagens complexos, densos e, sobretudo, humanos. Moore explorou as possibilidades do meio quadrinho com tamanha intensidade que muitos consideraram impossível adaptar Watchmen à telona, e demorou vinte anos para que isso acontecesse. O que me pasma é a boa recepção obtida pelo filme entre fãs e críticos, que não apenas o acharam bom como também fiel à obra original. Não vi qualidade nem fidelidade nesse longa-metragem, e notar que poucos percebem isso me faz pensar no quanto estamos ficando refém dos simulacros que a industria cultural cria. Esse filme Watchmen é um simulacro bidimensional do quadrinho. Mal funciona como filme, não tem altos e baixos, início, meio, fim, dramas, personagens ou mesmo uma história a ser contada. É um espetáculo de trucagens e efeitos de computador que busca entorpecer nosso senso crítico sobrecarregando os sentidos com informações que nada dizem, mas que nos mantém ocupados e deslumbrados o bastante para não pensar no que acontece. E, enquanto não pensamos, falas e situações são tomadas emprestado do quadrinho para que saibamos que estão lá, que o diretor cumpriu sua promessa, "manteve-se fiel à obra-mãe" e, portanto, pode costurá-las e executá-las de modo que sirvam aos propósitos de seu "verdadeiro filme", ou o único tipo de cinema que esse homem chamado Zack Snyder sabe fazer, sem que alguém note o abismo de diferença entre a obra original e a derivada. O Watchmen de Snyder pertence a uma estirpe de filmes narcisistas cujo único sentido se resume ao instante em que uma cena é mostrada. Houve época em que efeitos especiais tinham de suprir necessidades narrativas. Hoje, é a história e tudo o mais que servem o efeito. No caso de Watchmen, chega a ser pior, porque o enredo ou o simulacro de enredo sequer foi escrito para o filme, mas tomado de outra obra, recosturado e esterilizado, mal funcionando como pretexto de pirotecnia, como quer o diretor. Snyder não sabe ser sutil, não sabe sugerir ou insinuar como fez Moore em seu trabalho. Ele precisa "mostrar" o que o quadrinho insinuou e realiza seu marketing em função disso, como se, nos referidos momentos-chave, seu filme fosse além da obra, mostrando o que não se pôde ver, transpondo as barreiras do meio quadrinho. Snyder, na verdade, quer o oposto. Encobrir de marfim o vazio de sua versão, esconder sua incapacidade de ir além da ponta do iceberg. Mal pode imergir no universo tridimensional que Alan Moore criou. Num tempo em que a lógica imediatista de comerciais e videoclipes toma conta do cinema, testemunhamos o triunfo do tipo. O tipo é um corpo oco sem substância ou qualquer coisa que o justifique. Não há uma linha invisível costurando a trama, as falas, as emoções dos personagens de Watchmen, dando-lhes razão de ser, por isso suas reações soam falsas quando o enredo as pede. Os personagens são ocos e interpretam sentimentos que não possuem. Sim, são os personagens e não os atores que interpretam. Aliás, simulam, como o filme todo pretende simular um "quadrinho em movimento", aproveitando-se de uma experiência que já estava na mente do fã antes do longa começar, porque nada vem do filme, que sequer tem vida própria. Luiz Mendes Junior é formado em Comunicação Social. Ele escreve para a Revista Sina e o blog "notícias do front 3".
Um pouco de Filosofia - A arte na visão de Friedrich Nietzsche
"A arte e nada mais que a arte! Ela é a grande possibilitadora da vida, a grande aliciadora da vida, o grande estimulante da vida". (Friedrich Nietzsche)
 É de autoria do filósofo alemão Friedrich Nietzsche (1844-1900) a frase "a arte existe para que a realidade não nos destrua"; Nietzsche acreditava que somente a arte poderia oferecer aos homens força e capacidade para enfrentar as dores da vida, fazendo-os "dizer sim" à ela. A própria vida, argumenta, justifica-se enquanto fenômeno estético - o mundo é um acontecimento estético. E é se voltando para os gregos antigos que Nietzsche faz um elogio da arte, destacando o seu papel "redentor". Mas não é a Grécia da escultura clássica - tão romantizada - que o filósofo elogia, e sim a Grécia pré-socrática, da tragédia antiga. Nela, o destino do herói é sofrer; desse modo, o espectador aceita o sofrimento como parte da vida, e resiste à ele. Ao apreciar uma obra como, por exemplo, Édipo-Rei, de Sófocles (496 a.C. - 406 a.C.), dobramos nossos pensamentos de repugnância a respeito do horrível. É na tragédia ática que, segundo Nietzsche em seu livro O Nascimento da Tragédia, se encontram sintetizados dois impulsos artísticos existentes na própria natureza: o apolíneo e o dionisíaco. Os termos são inspirados em Apolo (imagem) e Dioniso, deuses da mitologia grega. O primeiro pode ser associado à "luminosidade", racionalidade, à sabedoria, às artes plásticas, à estética do sonho, à busca pela perfeição da forma. É pela presença do apolíneo na natureza que cada coisa possui um contorno específico, distinguindo-se de todas as outras; por isso, Nietzsche identifica Apolo como o deus do princípio de individuação, princípio pelo qual, nas palavras do próprio filósofo, "nos sentimos indivíduos colocados em um ponto preciso do espaço e do tempo". A arte apolínea (a epopéia de Homero, por exemplo) seria então um impulso de ordenação do "caos da vida" - uma justificação estético-racional originada na perplexidade diante da natureza, do devir e do absurdo da existência. Por esta razão, acredita Nietzsche, os gregos criaram os deuses olímpicos, uma forma de estética apolínea, cujo intuito é mascarar os terrores da existência (por exemplo, a própria finitude da existência). A beleza é, então, criada artificialmente. Em sua obra Nietzsche e a Verdade, o comentador Roberto Machado - professor da UFRJ - afirma que "a beleza é uma aparência, um fenômeno, uma representação que tem por objetivo mascarar, encobrir, velar a verdade essencial do mundo. Para escapar do saber popular pessimista, o grego cria um mundo de beleza que, ao invés de expressar a verdade do mundo, é uma estratégia para que ela não ecloda. Produzir beleza significa se enganar na aparência e ocultar a verdadeira realidade". Pode-se dizer, portanto, que a consciência apolínea é uma espécie de véu de Maia, que substitui o mundo da verdade por formas belas.  Ao contrário, Dioniso (imagem) é identificado como o deus do êxtase, da música, da dança; não aparência e racionalidade, e sim instinto, paixão, sentimentos selvagens, embriaguez, loucura, caos, desmesura, disformidade, fúria sexual, vitalidade, alegria de viver; não princípio de individuação, mas "saída de si mesmo", abolição da subjetividade, sentimento místico de unidade, fusão do homem com a natureza e com os demais homens, desvelamento do mistério do Uno-Primitivo. O desenvolvimento da arte está, para o filósofo, ligado à duplicidade do dionisíaco e do apolíneo. O mundo grego teria, portanto, encontrado uma síntese entre estas duas tendências. Neste momento de integração entre Apolo e Dioniso, o primeiro transforma um fenômeno natural (o dionisíaco) em fenômeno estético; isto é, o dionisíaco puro, bárbaro, se torna arte na união com Apolo. De acordo com o professor Roberto Machado, "não se trata, em Nietzsche, de negar a aparência em nome da essência. Se o dionisíaco puro é aniquilador da vida, se só a arte torna possível uma experiência dionisíaca, não pode haver dionisíaco sem apolíneo. A visão trágica do mundo, tal como Nietzsche a interpreta, é um equilíbrio entre ilusão e a verdade, entre aparência e a essência". Nietzsche entendia que a tragédia tinha a função de ser um "tônico da vida". Aristóteles (384 a.C. - 322 a.C.), filósofo da Grécia antiga (pós-trágica, contudo), também preocupou-se - em sua obra Poética - com o estudo da tragédia, que seria, ao seu ver, mimese, ou seja, imitação de ações humanas (assim como toda arte poética, de acordo com o filósofo grego). O homem sentiria um prazer congênito na imitação, além de uma disposição natural para a melodia e o ritmo; assim teriam surgido as artes poéticas. Para Aristóteles, ao contrário do que pensava Nietzsche, a tragédia - a quem o filósofo grego deu uma atenção toda especial - tinha uma função moral: suscitando no público uma mescla do sentimento de terror com o sentimendo de piedade, provocaria a catarse dessas emoções, purificando o espírito do espectador de suas paixões "degradantes". Nietzsche acreditava justamente no oposto, isto é, que a função trágica era estimular - e não purificar - essas paixões. Nietzsche argumenta ainda que Aristóteles não teria percebido a existência do apolíneo e do dionisíaco na cena trágica. Esta cena terminaria com a vitória final da ironia socrática.
O filósofo Friedrich Nietzsche
O fim da tragédia. Mas como Nietzsche interpreta o fim da tragédia grega? Como resultado da racionalização da arte, fruto do processo progressivo de supremacia do espírito apolíneo, desencadeado pela influência do filósofo grego Sócrates (470 a.C. - 399 a.C.). Para Nietzsche, já com o tragedista Eurípides (480 a.C. - 406 a.C.) vai se eliminando da tragédia o elemento dionisíaco, em favor de elementos morais e intelectualistas - pregados pelo socratismo. E afirma: "pela boca de Eurípides falava Sócrates". Segundo o filósofo alemão, "Sócrates foi um equívoco", disse "não" à vida, pois combateu o fascínio dionisíaco. Sócrates - modelo do "homem teórico" - quis dominar a vida com a razão e aí teria começado a decadência da humanidade. De acordo com o nietzschianismo, a razão apolínea era uma aparência, e não verdade; Sócrates - antes disso - identifica razão e verdade, e condena a aparência. Em outras palavras: Sócrates faz triunfar o mundo abstrato do pensamento. Assim, a tragédia e posteriormente toda a civilização ocidental acabam invadidas pelo racionalismo. Sócrates acusa a arte de irracionalidade, de representar o agradável e não o útil, de não procurar a verdade e de desviar o homem do caminho da razão. Platão (428 a.C. - 347 a.C.), discípulo de Sócrates, segue o mesmo caminho do mestre: condena as artes. Para ele, a mimese não cria objetos originais, mas cópias da realidade sensível (que, por sua vez, é cópia imperfeita de uma realidade inteligível, o Mundo das Idéias) - ou seja, a arte seria, nesse caso, cópia da cópia, um simulacro, e o artista "o terceiro na fila para o trono da verdade". Diante do desaparecimento da tragédia, Nietzsche - antipático à civilização moderna científica - sonhou com um processo de reestetização do mundo, isto é, com um renascimento da antiguidade grega, do dionisismo no espírito alemão, em nome de uma interpretação de mundo não racional, mas sim artística. Rafael Issa é graduando em Filosofia na Universidade de São Paulo (USP) e formado em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).
Indicadores objetivos e subjetivos de bem-estar e a hipervalorização da dimensão econômica da vida
Indicadores objetivos e subjetivos de bem-estar
Dinheiro traz felicidade? Eis uma questão que vai muito além dos ditos da sabedoria popular. Na busca por uma resposta plausível, um grupo de pesquisadores, resolveu criar questionários com base na relação existente entre dois indicadores: o bem-estar social subjetivo, aquele que se refere a satisfação do ser humano com a sua própria vida; e o bem-estar social objetivo, aquele que se refere a aquisição de bens. Pois bem, com base nesta idéia resolvi selecionar um texto muito interessante do economista e cientista social Eduardo Giannetti da Fonseca. Para quem não o conhece, ele é Ph.D. pela Universidade de Cambridge (Inglaterra), professor do IBMEC e tem como foco de seus estudos a História do Pensamento Econômico. ---- Qualquer que seja o propósito último da existência humana de um ponto de vista cósmico, uma coisa é certa: o propósito terreno das pessoas de carne e osso em qualquer lugar do planeta é alcançar a felicidade e fazer o melhor de que são capazes de suas vidas.
A busca do prazer e a aversão à dor não detêm o controle exclusivo das ações que conduzem à felicidade, mas são guias indispensáveis na realização deste fim. A natureza não dá ponto sem nó. Uma espécie biológica que sofresse dores lancinantes ao saciar os seus apetites por alimento, sexo e sono estaria com os dias contados. A mensagem que a língua cifrada da dor e do prazer físicos é inequívoca: a natureza nos quer vivos e dispostos a procriar. O que os materialistas libertinos do século XVIII intuíam é hoje uma evidência científica: o orgasmo feminino eleva de forma significativa as chances de fecundação no ato sexual. Como ensinava o velho e bom Aristóteles, "o prazer aperfeiçoa a atividade".
A questão do segredo da felicidade e do lugar do prazer na melhor vida ao nosso alcance tem ocupado alguns dos melhores (e piores) cérebros da humanidade há milênios. Do esoterismo neoplatônico aos manuais de auto-ajuda que abarrotam as livrarias, existem receitas para todos os paladares. Mas é somente de alguns anos para cá, a partir do início da coleta sistemática de evidências e dados empíricos sobre o assunto, que um trabalho rigoroso começou a ser desenvolvido. Alguns dos resultados até aqui obtidos estremecem convicções fortemente enraizadas.
Os programas de pesquisa em andamento atacam a questão dos determinantes da felicidade por diversos ângulos. Entre eles se destacam: o estudo do que torna certos estados de consciência mais ou menos aprazíveis; a identificação dos fatores pessoais, socioeconômicos e culturais associados a variações de bem-estar subjetivo; e as bases químicas, hormonais e neurobiológicas das experiências mentais e emocionais que levam alguém a se sentir mais ou menos feliz com a vida que tem. A febre em torno do tema nos meios acadêmicos, especialmente nos Estados Unidos, pode ser avaliada pela criação de um novo periódico integralmente dedicado ao assunto - o Journal of Happiness Studies. O interesse pelo tema, alguém poderia ironizar, é sintomático. Se a felicidade (ou a falta dela) não houvesse se tornado um problema, existiria tamanha preocupação em pesquisá-la?
O que torna as pessoas felizes? A pergunta pode soar arrogante e pretensiosa, mas a resposta não precisa ser. O primeiro passo é constatar que o bem-estar humano abarca dois componentes básicos.
Existe uma dimensão objetiva, passível de ser publicamente apurada, observada e medida de fora, e que se reflete nas condições de vida registradas por indicadores numéricos de nutrição, saúde, moradia, uso do tempo, renda per capita, desigualdade, criminalidade, poluição e assim por diante; e há uma dimensão subjetiva, que é a experiência interna do indivíduo, ou seja, tudo aquilo que se passa em sua mente de forma espontânea enquanto ele vai vivendo e agindo no decorrer dos dias e que volta e meia ocupa a sua atenção consciente nos momentos em que ele se dá conta do que está sentindo e pensando ou reflete sobre a vida que tem levado.
A felicidade é algo que sucede na confluência das duas dimensões. Situações extremas revelam a dependência recíproca entre ambas. Se o lado objetivo não preencher requisitos mínimos, a carcaça biológica sucumbe e não há mais bem-estar possível (pelo menos entre os vivos). Mesmo um faquir precisa vez por outra entreter o estômago. Mas para alguém cronicamente deprimido, em contrapartida, o viver é insípido e nada recobra o gosto de ser quem se é. Embora cercado de luxo e conforto, sua vida beira o insuportável: "não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu".
O grande desafio para quem se propõe a analisar os determinantes da felicidade na vida e convivência humanas é obter informações e dados empíricos confiáveis sobre a dimensão subjetiva do bem-estar. Observar diretamente o fenômeno está fora do nosso alcance - apenas alguma forma desconhecida de endoscopia da psique humana, algo difícil de ser concebido até mesmo especulativamente, daria conta da tarefa. O desafio, contudo, é real. Dado que não é possível observar e medir de fora o bem-estar subjetivo, como então saber se as pessoas estão se sentindo mais ou menos felizes com a vida que levam à medida que as condições do mundo ao seu redor se transformam?
A saída encontrada foi perguntar a elas. Nas últimas três décadas, uma formidável bateria de questionários e entrevistas vem sendo aplicada a amostras representativas das populações de dezenas de países, principalmente entre os de alta renda per capita, procurando obter respostas sobre o grau de felicidade (elevada, moderada ou baixa) dos indivíduos com a sua vida como um todo.
O método, é certo, desperta dúvidas metodológicas legítimas, mas pelo menos oferece uma primeira aproximação do que era até aqui uma verdadeira terra incognita. Ele tem recebido aprimoramentos ao longo do tempo e, mais importante, tem gerado resultados que satisfazem critérios externos de validação, que são consistentes na experiência de diversos países e que parecem justificar um esforço continuado de análise e investigação.
Uma das descobertas centrais do programa de pesquisa sobre os determinantes da felicidade é que a relação entre os indicadores objetivos e subjetivos de bem-estar está longe de obedecer a um padrão bem-comportado. Como resumem os organizadores da mais completa e atualizada coletânia de papers sobre o que se produziu até o momento na área: "Há várias décadas os cientistas sociais deram início a investigações em larga escala sobre a satisfação dos indivíduos com as suas vidas e a sua sociedade. Um dos achados mais robustos desta pesquisa foi que as correlações entre os juízos globais sobre a qualidade de vida e as condições objetivas são freqüentemente bastante fracas".
Uma amostra das evidências e achados surpreendentes descritos na lietartura especializada ajuda a ilustrar a natureza dos resultados obtidos:
Décadas de forte crescimento econômico nos Estados Unidos, Europa e Japão na segunda metade do século XX muito pouco ou nada alteraram as proporções de indivíduos felizes e infelizes na população dos respectivos países; o crescimento compra felicidade nos países extremamente pobres, mas a partir do momento em que uma nação atinge determinado nível de renda (cerca de U$ 10 mil anuais per capita ou o equivalente à renda atual de países como Irlanda, Portugal e Coréia do Sul), acréscimos adicionais de renda não mais se traduzem em ganhos de bem-estar subjetivo; entre 1975 e 1995, por exemplo, a renda média por habitante nos Estados Unidos aumentou 43% em termos reais, ao passo que a felicidade média dos americanos não saiu do lugar. 
Embora exista um vínculo positivo entre felicidade relatada e nível de renda pessoal dentro de cada país, ou seja, há uma proporção maior de felizes entre os mais ricos, o impacto de aumentos da renda pessoal em termos de bem-estar subjetivo tende a ser forte somente para as faixas de menor renda na sociedade, declinando sensivelmente a partir de patamares um pouco mais altos (cerca de U$ 20 mil anuais no caso americano). Curiosamente, o vínculo entre renda e felicidade volta a ficar fortemente positivo quando se atingem níveis ainda mais elevados de renda (cerca de U$ 80 mil anuais). Os desempregados involuntários apresentam taxas significativamente maiores de infelizes, suicidas e parassuicidas do que a média da população, mesmo em países com generosos sistemas de salário-desemprego e mesmo que se controle o efeito da perda de renda; os aposentados, entretanto, apesar de não possuírem emprego, relatam níveis de satisfação com a vida ligeiramente acima do verificado entre os que estão empregados e trabalhando.
Uma pesquisa de opinião feita em 1999 com cerca de 3 mil mulheres em onze países revelou que 93% das entrevistadas acreditam estar em melhor situação do que estavam as suas avós no tocante a direitos e oportunidade; em contrapartida, a maioria delas (54%) não se considera mais feliz do que teriam sido as mulheres na geração de suas avós. Um estudo clássico realizado com ganhadores de prêmios vultuosos em loterias (média em torno de US$ 500 mil) constatou que passado o "pico" da euforia momentânea, os ganhadores não apresentavam níveis de bem-estar subjetivo distintos dos verificados entre os não-ganhadores e relatavam menor grau de prazer do que antes do prêmio ao realizar seus afazeres comuns do dia-a-dia; efeito simétrico foi observado em prisioneiros condenados a confinamento solitário: após um período inicial de "inferno mental" de cerca de 72 horas, eles passaram a considerar a experiência bastante tolerável. Existe um forte vínculo positivo entre saúde e bem-estar subjetivo; ocorre, porém, que ele somente se mantém quando o indicador de saúde utilizado é a percepção que a própria pessoa tem do seu estado de saúde: a correlação se enfraquece ou desaparece por completo quando o indicador utilizado é a avaliação feita pelos médicos sobre o estado de saúde daquela pessoa ou, ainda, a freqüência com que ela precisou consultar serviços médicos ou ser hospitalizada; em suma: as crenças do indivíduo sobre a sua própria saúde têm maior grau de correlação com a sua felicidade do que os indicadores objetivos de saúde.
Fatos como estes - e diversos outros poderiam ser arrolados - dão o que pensar. A noção de racionalidade tem a ver com a escolha dos meios adequados para a obtenção de um determinado fim. A ação racional é aquela que, dadas as restrições de recursos e conhecimento disponíveis, identifica, mobiliza e aplica o melhor método existente para alcançar o objetivo pretendido. Mas o fato de uma ação ser racional não quer dizer que ela será capaz de atingir o alvo. O avanço do conhecimento pode revelar que ações que pareciam perfeitamente racionais na busca de determinado fim, dado o que se supunha conhecer sobre o mundo, na verdade não o são. (Um exemplo: se os médicos têm razões para crer, no momento t1, que o remédio A cura a moléstia B; mas depois se descobre, em t2, que ele provoca o efeito colateral C, pior que B, então a prescrição de A era racional em t1, mas deixa de sê-lo em t2.) A felicidade sempre foi e continua sendo um grande fim, se não a finalidade suprema, em nome do qual se justificam escolhas na vida pública e privada. Assim como a saúde está para a medicina, o pursuit of happiness, o bonheur public, a felicitá pubblica seria o objetivo maior frente ao qual toda a maquinaria do processo político, social e econômico constituiria tão-somente um meio adequado e ao qual estaria subordinada. O economista Irving Fisher - amplamente reconhecido como o maior cientista econômico americano de todos os tempos - é claríssimo sobre isso. Toda atividade produtiva, ele argumentou, "e todas as transações monetárias que dela decorrem derivam a importância que possuem somente na condição de preliminares úteis e necessárias da renda psiquíca - da satisfação humana (human enjoyment)". De Petty e Turgot, no século XVIII, a Keynes, Friedman e Samuelson, poucos economistas dignos de nota discordariam. O programa de pesquisa sobre os determinantes do bem-estar subjetivo está abrindo à visitação pública a "caixa-preta" das experiências psíquicas das mentes individuais. Mas se é verdade, como tantos acreditam, que o desempenho econômico importa e faz sentido somente na medida em que propicia o aumento da felicidade, então há algo problemático e perturbador nas evidências sobre o que vem ocorrendo com a renda psíquica nos países ricos. A pergunta que fica é: por que a relação entre os indicadores objetivos e subjetivos de bem-estar se revela tão caprichosa? A riqueza material e as condições objetivas de vida são um bom indicador do bem-estar de uma sociedade? Como interpretar a pletora de aparentes anomalias que os estudos empíricos sobre a felicidade e a psicologia do prazer vêm produzindo? Na vida pública, assim como na pessoal, os meios escolhidos estão conduzindo aos fins desejados. (Texto retirado do livro "Felicidade - Diálogos sobre o bem-estar na civilização", pgs. 59-69 ) ---- A hipervalorização da dimensão econômica da vida Um dos aspectos mais interessantes e importantes ao se analisar a crise econômica que a sociedade mundial está vivendo é o desejo incessante por riqueza, o que leva o homem a tomar decisões irreponsáveis, desconsiderando todos os custos que estas podem trazer. É fato, as crises geralmente acontecem por excessos que são cometidos tendo como fim, na maioria dos casos, um enriquecimento cada vez maior em um espaço de tempo cada vez menor. Uma crítica existente em relação aos anseios da sociedade, é a busca incessante e descomedida por resultados, custe o que custar. O estresse das pessoas diante da agressividade das exigências do mercado atual é preocupante e, felizmente, de uns tempos para cá, aos poucos, as empresas estão começando a olhar para este esta problema, disponibilizando espaços de entretenimento e relaxamento, porém, e isto é que me preocupa, a lógica continua mesma, disponibiliza-se estes momentos com a finalidade de o funcionário produzir mais e mais. É a hipervalorização da dimensão econômica da vida. Há uma submissão do individual e do social ao econômico, quando na verdade deveria ser o contrário. Abaixo coloco uma rápida entrevista realizada com o economista e cientista social Eduardo Giannetti da Fonseca, onde ele fala um pouco sobre esta questão.
Marcel Tutui Gianotti é autodidata de temas relacionados à política, economia e sociedade.
Você tem sede de quê?
Bebida é água! Comida é pasto! Você tem sede de quê? Você tem fome de quê?
A gente não quer só comida A gente quer comida Diversão e arte A gente não quer só comida A gente quer saída Para qualquer parte (Titãs - Comida)
A diversão é uma necessidade básica humana, se não de primeira grandeza, ao menos de segunda. Seja como forma de passar o tempo, distração, repouso ou simplesmente enquanto lazer, todos nós precisamos de entretenimento e diversão. Panis et circensis (“pão e circo”) era uma prática política na Roma antiga que, garantindo aos cidadãos a satisfação dos seus desejos mais básicos, garantia também a harmonia e a manutenção do estado de coisas, o status quo do Império. Desde que tivessem pão (alimento) e circo (diversão), estavam todos felizes e satisfeitos, alienados das decisões políticas, evitando, assim, revoltas que pudessem comprometer e/ou desestabilizar o poder instituído. Coisas passadas... O entretenimento se difere da cultura, embora esta (tomada em um sentido amplo) englobe aquele. As formas inventadas pela sociedade para se divertir e passar o tempo diferem de época para época, de sociedade para sociedade e são, portanto, culturais. Para nossos amigos romanos, gladiadores lutando pela vida, para nós, televisão, carnaval, futebol, balada. Novamente: a diversão é uma necessidade básica humana e ninguém, em hipótese alguma, será contra a diversão em si. O problema é quando o entretenimento passa a englobar, destruir e substituir outras esferas da cultura, principalmente quando nos referimos às produções artísticas e intelectuais. A arte sempre serviu também ao entretenimento e a sua qualidade de belo, da beleza da forma que toma, é, em parte, o que garante a sua existência, permanência e relevância no mundo. No entanto, a arte é também, acima de tudo, produto do trabalho de um indivíduo que procura capturar dada realidade e experiência e ordená-las, interpretá-las, transfigurá-las em um objeto que assume tal forma que cria, concretiza e compartilha sentidos, possibilitando a inserção e pertencimento do sujeito em uma tradição, em uma história de vida que o transcende e do qual ele faz parte e possui um lugar de ação e modificação da realidade dada. Por isso, a arte possui também um caráter revolucionário, de desautomatização, procurando revitalizar e libertar a percepção habitual, cotidiana e desvendar, desocultar de modo que o que não é perceptível se torne perceptível. “E eis que para devolver a sensação de vida, para sentir os objetos, para provar que pedra é pedra, existe o que se chama arte. O objetivo da arte é dar a sensação do objeto como visão e não como reconhecimento; o procedimento da arte é o procedimento da singularização dos objetos que consiste em obscurecer a forma, aumentar a dificuldade e a duração da percepção. O ato de percepção em arte é um fim em si mesmo e deve ser prolongado.” (CHLOVSKI) Pois bem, basta passar os olhos em qualquer lista de “livros mais vendidos” ou “filmes mais assistidos” para constatar que tais produtos não compartilham exatamente da mentalidade descrita acima. Ao invés de desautomatização, prometem automatização, pois os acontecimentos não só nos são dados em sua completa banalidade, como também o próprio produto, muitas vezes, não é senão a cópia da cópia da cópia da cópia da cópia da cópia e, portanto, nos é inteiramente familiar, prevemos exatamente o que vai acontecer, quando, com quem, porque e qual será o desfecho. A comunicação ocorre imediatamente, sem problemas ou interferências para o receptor, não nos é exigido pensar, refletir, estranhar, perceber, imaginar, mas pura e simplesmente desfrutar, usufruir, consumir passivamente o enlatado velho com nova repaginação. O problema recai justamente no fato de que, não só deixamos de exercitar nossa capacidade crítica, analítica e estética, como também passamos a enxergar tais produtos como bens de consumo imediato, fugazes, banais, descartáveis e uma vez que a lógica do consumo é atribuída aos produtos da cultura, perde-se a qualidade vital destes, bem como a própria idéia de permanência e durabilidade no mundo, já que tudo passa a ser perecível. Estamos perdendo o elo de ligação que nos garante o pertencimento, o lugar e o sentido na história e na existência, correndo o risco de anular qualquer promessa de futuro, pois a atitude do consumo, que vê tudo como um bem a ser consumido e devorado (inclusive o próprio mundo), não é senão predatória. O horizonte não é dos melhores.
Folclores da desinformação
Meu intento original era escrever sobre um evangelho desconhecido, muito popular em seu tempo, mas que acabou vetado do que se tornou o novo testamento da Bíblia e quase desapareceu da existência em virtude disso. Por sorte e capricho do destino, um exemplar dele foi encontrado no Egito, juntamente com dezenas de outros textos que integraram as origens do cristianismo antes da Bíblia conhecida ser inventada.
Mas meu intento original ficará para outra postagem, pois enquanto seu corpo ganhava forma em meu monitor, outra idéia intercedeu. Uma conclusão óbvia pouco falada em nossos tempos ou em qualquer tempo.
Vamos a ela.
A mania hoje é questionar tudo, tudo o que foi tabu em séculos anteriores virou objeto de dúvida e contestação, algo, a princípio, producente na busca pelos conhecimentos supremos, mas que, no fim, pode desembocar em mentiras até piores do que as que supostamente buscava desmascarar.
Um exemplo deste fenômeno é a onda de documentários e obras de "ficção-realidade" sobre as possíveis origens do cristianismo. Se em outras eras, questionar os dogmas da Bíblia era tabu, hoje é a ordem do dia. Mas questionar não basta. É necessário "preencher" as lacunas abertas, e, para isso, nada melhor do que as dezenas de evangelhos, cartas e revelações que não puderam fazer parte das escrituras. Assim, os textos canônicos ganham aura de suspeitos enquanto os apócrifos viram "provavelmente verdadeiros", uma vez que a sede do público por verdades acobertadas sobre a origem de Jesus é maior que sua boa vontade de avaliar fatos com esmero. E é essa sede, essa vontade de um grande espetáculo, de um filme sobre uma conspiração para esconder o maior segredo da história, enfim acessível aos mortais, é que move a industria cultural na elaboração de seus novos folclores.
Se na antiguidade havia intenções escusas regendo a escolha dos postulados que virariam verdade e dos que deveriam ser apagados do conhecimento, hoje, pelo menos no que diz respeito ao material produzido para o grande público, a situação mudou pouco. O documentário X do Discovery Channel sobre extraterrestres precisa manter a chama dos aficionados por ufologia acesa, passar a impressão de que um grande mistério está para ser desvendado e de que há conspirações para acobertar a existência de alienígenas a nossa volta. Para isso, as partes chatas, maçantes, complicadas, discordantes, multiconclusivas ou inconclusivas pesquisadas sobre o assunto devem ser aparadas, apagadas, modificadas, simplificadas e adaptadas ao objetivo do programa que é satisfazer a sede de teorias de seu público. Não agir assim implica na inviabilidade do documentário como produto. Sua proposta documentarista é um pretexto. Sua natureza é ser espetáculo, entreter uma geração de consumidores acostumada a refletir pouco e assimilar verdades sensacionais que façam suas vidas parecerem um filme. Michael Moore aprendeu a lição e hoje ganha fortunas usando fragmentos de fatos para contar suas histórias bombásticas. Algumas delas até têm fundamento, mas deixá-las revelar-se em seus prós, contras, "poréns", entrelinhas monótonas, complicações, lacunas abertas e inconclusões diminuem seu poder de filme e best-seller, e, ao público, as histórias precisam fazer sentido, seguir em uma direção, apontar esquemas simples, causas, vilões: "O problema é aqui, o culpado é aquele, eis é a solução! Óbvio! Como é que não vimos antes?"
Como outros ao longo da história, Adolf Hitler aprendeu que, para manipular povos, é necessário um discurso simples com um dilema simples. Complexidade gera descontentamento, paralisia e predisposição a qualquer um que apareça com uma verdade mais estimulante. Os produtores da indústria cultural sabem disso. Sabem que estão competindo pela atenção e fidelidade emocional de um consumidor viciado. E entre centenas de presentes na vitrine, o da embalagem mais bonita pode não ser o melhor, mas está visível e seduz.
Luiz Mendes Junior é formado em Comunicação Social. Ele escreve para a Revista Sina e o blog "notícias do front 3".
Compromisso na televisão
Não dá para negar: a atual programação da nossa tv aberta é de péssima qualidade - um festival de mau gosto, salvo raríssimas exceções. A única maneira de reverter este quadro é criando novas regras para a televisão brasileira. O problema, porém, ao propor "regras para a tv", é que boa parte da opinião pública e dos políticos (além, claro, das próprias emissoras de televisão) defenderiam a tese de que este é um caminho anti-democrático, um retorno à censura. A população torceria o nariz. Mas será que essas regras realmente caracterizariam uma via antidemocrática?
Programas como A Tarde é Sua, SuperPop e Malhação, entre outros, representam o que há de pior na televisão brasileira
Novas regras, medida democrática. De fato é preciso preservar (e fazer avançar) as liberdades democráticas em nosso país. Contudo, democracia não é sinônimo de "pode tudo". Todo país precisa de regras capazes inclusive de garantir e ampliar a democracia. Por esta razão, a televisão brasileira precisa urgentemente de cotas de compromisso. Cada emissora deveria se comprometer a usar parte da sua programação para transmitir programas socialmente responsáveis. Confesso que, leigo em questões de legislação, não sei até que ponto já são exigidos dos canais de televisão comprometimentos assim. Provavelmente as leis referentes à tv fazem recomendações deste tipo, sem entretanto cobrar efetivamente que tais compromissos sejam assumidos. O que de toda forma parece-me claro é que, se existem recomendações ou mesmo cobranças neste sentido, possuem impacto irrisório sobre o produto final. Isto não deve significar que o Estado rigorosamente idealize e controle as produções advindas destas cotas de compromisso (o que inevitavelmente traria o risco de partidarização da tv); o que ele deve é garantir que os canais abertos dediquem uma parcela da sua grade horária à programas comprometidos com a cultura, com a educação, com a criança, com a inclusão social, com uma discussão política mais aprofundada, com debates sobre questões socialmente relevantes etc. As emissoras abertas poderiam, inclusive, repartir estes compromissos. Problema: ao produzir programas fundados nesta proposta, como iríamos decidir quais seriam adequados à ela e quais não? Bem, estes critérios teriam de ser discutidos com mais profundidade. Talvez uma comissão de Ética - temperada com professores, acadêmicos, especialistas na área de comunicação, psicólogos, filósofos, sindicatos, Ongs etc - pudesse fazer tal julgamento (o que parece muito mais coerente e democrático do que mera sujeição à decisão de apenas seis donos de emissora). É uma sugestão, outras poderiam ser levantadas. De toda forma, com isso nós não estaríamos destruindo os espaços de livre-criação daqueles que fazem a tv ou banindo os programas que buscam entreter - mas sim equilibrando, diversificando a televisão, impedindo que o entretenimento (vulgar, na maioria dos casos) tenha a hegemonia que atualmente possui. Permitiríamos assim o acesso do público à um outro universo, em que houvesse um contraste harmonioso entre diversão, humor, informação, ludicidade e responsabilidade social. Em outras palavras: fazendo "mais democracia", e não "menos democracia". Uma televisão não ser controlada ou censurada pelo Estado não garante que ela seja essencialmente democrática; o público hoje, na verdade, está submetido às opções (pouco variadas) oferecidas por meia dúzia de empresários intocáveis que comandam os canais abertos e que visivelmente estão objetivando apenas audiência e lucro. O que verdadeiramente lhes interessa é que seus programas - independentemente de qualidade - tenham audiência; assim, poderão cobrar mais dinheiro de seus anunciantes. Por isso se faz uma programação tão nivelada pelo baixo nível cultural da grande maioria da população (na qual, sim, incluo também as classes média e alta, que não deixam de ser incultas e irreflexivas), e não uma programação cujo fim fosse fazer o espectador se superar, se "elevar". Segundo Renato Janine Ribeiro, professor de Ética e Filosofia Política da USP, em sua obra O Afeto Autoritário, "o setor de política de comunicação se tem caracterizado, infelizmente, por uma inquietante omissão do poder público". A televisão aberta, que deveria constrastar distração e elevação, diversão e reflexão, apenas distrai, e da pior maneira possível. E aí mesmo naqueles momentos em que poderíamos - em tese - pensar (com os telejornais, por exemplo), acabamos de certa maneira não o fazendo. Acompanhamos os noticiários na tv também como uma forma de distração. Telejornal no Brasil é muito mais sinônimo de distração mórbida do que de informação; eles pouco conseguem fazer com que nós compreendamos mais profundamente a situação econômica e social do país. Neste sentido, apenas reforçam o espírito de alarmismo, e aquele sentimento muito difundido de que "tudo está uma droga e nada tem solução". Falta ao público a capacidade de reflexão em cima da notícia, e falta ao nosso telejornalismo a capacidade de suscitar essa reflexão.
 Mesmo os telejornais brasileiros se mostram incapazes de suscitar reflexões pertinentes Tudo isto dá à nossa televisão um caráter extremamente ditatorial que - por não ser diretamente advindo do Estado (embora indiretamente sim, porque o Estado é também responsável por este "quadro" que torna nossa população tão vulnerável e passiva diante de uma programação de tão péssima qualidade) - parece não nos incomodar. Muitos brasileiros não encontrariam dificuldades em constatar que uma televisão inteiramente controlada pelo poder Executivo não é democrática (nosso recente passado político nos ensinou os males que podem ser causados por um Estado autoritário); nos esquecemos, porém, que uma tv inteiramente controlada por um empresário também não o é, viabilizando-se aí aquilo que o sociólogo francês Pierre Bordieu acertadamente chamou de "censura invisível". Nós precisamos de um caminho intermediário: nem um "pode tudo", nem um "não pode nada". O "pode tudo" é tão prejudicial e tão ditatorial quanto o "não pode nada". No "pode tudo" prevalece a ditadura do mesmo. Um exemplo: a igreja da Graça, do pastor evangélico Romildo Ribeiro Soares, possui hoje horários em várias emissoras de televisão. Isso não é uma afronta à democracia? Não haveria aí uma distribuição injusta do espaço, calcada apenas na lei do "quem pode pagar, leva"? Uma tv democrática não deveria ser aquela em que os membros de outras igrejas, e mesmo de outras religiões, pudessem aparecer e, assim, apresentar suas cosmovisões de mundo em condições de igualdade? Se não existe uma religião oficial no Brasil, não deveria então haver limitações para este tipo de "expansionismo"?
 Com a contribuição financeira dos fiéis da sua Igreja da Graça, o pastor Romildo Soares acumula cada vez mais horários na televisão
Além das cotas de compromisso, é preciso também repensar a distribuição do espaço, implementando restrições necessárias que contenham os abusos - não apenas no campo da religião - e permitam que a televisão se desenvolva com diversidade. O mito da "liberdade de mercado", hoje tão inconscientemente difundido na mentalidade da população, nos faz ter ojeriza à idéia de um empresário sendo minimamente limitado por regras e leis. Porém, à medida em que, sem limitações, impõe-se arbitrariamente (e com nivelação por baixo) o que 180 milhões de pessoas devem assistir na televisão, esta "liberdade de mercado" acaba sendo um obstáculo ao desenvolvimento da liberdade intelectual de cada cidadão. Deve-se lembrar que, mesmo quando privado, um canal aberto é sempre voltado para toda a população e que - assim sendo - a tv não pode ser eximida de assumir responsabilidades para com este público cujos valores e opiniões ela tanto influencia. * Ficam como dicas de leitura os tópicos A Omissão do Poder Público, A tese liberal contrária à censura e O uso do liberalismo econômico contra os deveres constitucionais da comunicação de massas, presentes no livro O Afeto Autoritário - Televisão, Ética e Democracia, de Renato Janine Ribeiro, professor de Ética e Filosofia Política da Universidade de São Paulo.
Rafael Issa é graduando em Filosofia na Universidade de São Paulo (USP) e formado em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).
A Crise Econômica Global
Olá a todos! Meu nome é Marcel e sejam bem-vindos! A mim ficou a missão de abordar temas relacionados à política e economia. Não sou um profundo conhecedor dos temas, mas gostaria de usar este espaço para expor opiniões sobre algumas questões que me inquietam. Gostaria de começar escrevendo sobre a posse de Obama, mas deixo este tema para mais tarde. Hoje pretendo discutir um pouco sobre a crise econômica que estamos vivenciando.
As origens da crise remontam ao furo da Bolha da Internet em 2001. A expansão da rede na segunda metade da década de 90 estimulou grandes investimentos no setor de tecnologia. As empresas investiram, criaram seus sites, uma estrutura de e-commerce, etc... Idéias simples como o MSN-Hotmail, Google, Yahoo!, Amazon e outras se transformaram em empresas de ponta com lucros elevadíssimos. As ações destas empresas subiram vertiginosamente e uma nova bolsa de valores específica para este mercado foi criada, a NASDAQ. Investidores dos mais diversos ramos começaram a apostar na Internet, porém a falta de estruturação do setor gerou desconfiança e logo as fontes que irrigavam as empresas pontocom secaram. Allan Greenspan, presidente do Federal Reserve (Banco Central Americano), orientou os investimentos do setor de tecnologia para o setor imobiliário diminuindo a taxa de juros e reduzindo as despesas através do sistema de hipotecas subprimes, que nada mais são do que empréstimos concedidos a famílias frágeis e sem condições. Os bancos que criaram estas hipotecas inventaram títulos com o intuito de serem negociados no mercado financeiro para outros bancos, seguradoras e outras instituições ao redor do mundo. Em 2005, após uma pequena turbulência, o FED aumentou a taxa de juros com o intuito de conter a inflação e, a partir desta decisão, o preço dos imóveis cai, o que impediu o seu refinanciamento levando milhares de clientes a se tornarem inadimplentes e fazendo com que os títulos não pudessem ser negociados a qualquer preço, gerando assim um efeito dominó que culminou no abalo do sistema financeiro internacional no segundo semestre de 2007 e na falência do Lehman Brothers, nas perdas bilionárias do Citigroup e do Merrill Lynch no final de 2008.
Muitos analistas afirmam que há uma desconfiança muito grande em relação ao rumo da economia mundial nos próximos anos. A falta de otimismo faz com que os investidores fiquem resignados em colocar dinheiro em determinado lugar pelo fato dele não ter garantias de que ele renderá. Assim sendo, as empresas com ações em bolsa de valores perdem dinheiro, precisam reestruturar seus gastos, o que gera demissões. Sendo assim, as pessoas diminuem o consumo e a economia perde em movimento e dinamismo. Robert Zoellick, presidente do Banco Mundial afirma que 2009 será um ano extremamente difícil e que a economia global deve crescer por volta de 0,5%, o pior desempenho desde a Segunda Guerra Mundial. A OIT (Organização Internacional do Trabalho) prevê que o número de desempregados poderá aumentar em até 50 milhões em relação ao ano passado. Para você ter uma idéia, o número de desempregados no mundo hoje beira os 190 milhões.
Obama assumiu a presidência dos EUA com a missão de reerguer a principal e mais influente economia do planeta, o que seria de fundamental importância para a superação da crise. Até o exato momento, eu não li nada que se refere à aprovação do mega-pacote econômico de US$ 900 bilhões por parte do Senado. Em sua essência, o incentivo tem como foco o estímulo à demanda através da preservação e criação de cerca de três milhões de empregos, além de elevar o potencial para o crescimento de longo prazo através dos mais diversos tipos de investimentos. Existe um certo ceticismo por parte dos intelectuais norte-americanos acerca dos planos do novo presidente. Paul Krugman, professor da Universidade de Princeton e Nobel de Economia, acredita que o plano não é suficientemente grande e que a redução de impostos, um dos itens que buscam incentivar a criação de vagas no mercado de trabalho e, como conseqüência, o consumo, não funcionará. Ele fala que o foco principal do governo deveria ser os gastos governamentais. Greg Mankiw, professor da Universidade de Harvard e ex-diretor do Conselho de Assessores Econômicos de George W. Bush, diz exatamente o oposto, pois a situação exige medidas de rápida implementação e a redução de impostos é a que mais se encaixaria neste propósito.
Pra finalizar, eu acredito que esta seja uma grande oportunidade para refletirmos acerca dos benefícios que esta retração econômica pode trazer. Se pensarmos no meio-ambiente e no descaso do homem no que se refere a implementação de mecanismos de sustentabilidade, melhor momento não há. Estamos consumindo recursos naturais de uma maneira irresponsável e, se não mudarmos determinadas atitudes, poderemos viver em breve crises muito mais destrutivas que são as geradas por catástrofes ambientais. Marcel Tutui Gianotti é autodidata de temas relacionados à política, economia e sociedade.
Medo ou liberdade?
Domingo de manhã. Assisto uma 'sitcom' norteamericana na TV. A protagonista da série quer apresentar seu namorado a seus pais. Ele é um ferrenho ambientalista vegetariano, o pai dela, dono de uma granja frigorífica. Antes mesmo que o jantar comece, tem-se um desentendimento entre os dois e o namorado vai embora. Por achar que foi injusta com seu pai, já que defendeu o namorado (detalhe: ela não é vegetariana, nem ambientalista), ela vai conhecer a granja para saber o que o pai faz. Ela fica horrorizada com o que vê, mas o pai acreditando que ela gostou do negócio de família resolve passá-lo para ela. Ela não quer e após uma briga com seu pai, diz graciosamente: "Eu não posso assumir a granja, não porque eu desaprovo o seu trabalho, mas simplesmente porque eu não conseguiria fazer o que você faz. E é bom que você faça, então, sabe... Nós, comedores de hambúrgueres de frango, não precisamos saber o que realmente acontece. É bom que tenhamos alguém que nos proteja de saber e é ainda melhor que seja você. Porque você é meu pai e é isso o que os pais devem fazer... nos proteger". O episódio acaba com uma linda reconciliação entre a família, a moça e o namorado da moça, que desta vez conversam animadamente à mesa. Ok! A verdade é que a grande maioria dos seriados norteamericanos são uma porcaria. Não vou nem falar da abordagem extremamente superficial do tema e das atitudes covardes e hipócritas da protagonista, que é, afinal, apenas mais uma moça de 'bom coração', que quer somente que seus pais aprovem seu namorado e sejam capazes de sentar juntos, sorrir e contar piadas. Principalmente, ela quer poder dormir tranquilamente à noite, beijar seu namorado, se dar bem com seus pais, sair com as amigas para um drink. Não quer ser posta no meio de um conflito, não quer ter que pensar seriamente no assunto, não quer ter que fazer escolhas, se comprometer, compreender, não, não, nada disso. Apenas conciliar. Ela está feliz com seu pai protetor, seu namorado ecologicamente correto, suas amigas peruas, seu sono tranquilo e, como nos alerta Camus, "Não se deve impedir a boa gente de dormir. Seria preciso mau gosto e o gosto consiste em não insistir, todos sabem disso". Portanto, deixemos a moça em paz.
No livro VII d'A República, Platão desenvolve o famoso mito da caverna: imagina homens acorrentados numa morada subterrânea que não podem mexer-se, nem ver senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar a cabeça; atrás deles, em uma colina, há uma fogueira, que projeta sombras na parede à sua frente e vendo apenas sombras, eles as tomam por objetos reais. Se um desses prisioneiros for liberto, ele irá, inicialmente, sofrer, não está acostumado a se movimentar, a caminhar, a olhar para luz, não conhece senão sombras, o próprio atordoamento o impedirá de distinguir as coisas a seu redor e, por fim, se o arrastarem para fora da caverna até a luz do Sol, ele irá sofrer intensamente, seus olhos não estão habituados a tamanha luz e claridade e provavelmente não poderá ver nem as sombras que habitavam seu mundo. Isso parecerá a ele uma verdadeira violência... até que, com o tempo, ele comece a se acostumar com a nova 'existência'. Então, uma vez que passar a enxergar e aperceber melhor os reflexos, os objetos, o próprio Sol, ficará realmente agradecido, sua morada anterior parecerá lamentosa e ele não vai querer outra vida. Mas eis que seus companheiros de 'cela' permanecem lá e o ex-prisioneiro deve voltar para libertá-los...
Essa alegoria da existência humana já foi retomada e retrabalhada diversas vezes, sob diversos prismas, ao longo dos séculos, e a idéia da cegueira dos homens, da necessidade de algo que os desperte do torpor em que se encontram é um pensamento que persiste. No livro Ensaio sobre a cegueira de José Saramago, os habitantes de uma cidade vão perdendo a visão um por um, até que todos estejam condenados pela epidemia. Assistimos, então, a uma decadência, um rebaixamento total dos valores, da decência, da mais básica civilidade humana; em meio a esse cenário, uma mulher ainda preserva a sua visão. Sinal de esperança? Sua visão é antes uma maldição que a torna testemunha, tal como o leitor, da devastação em que se encontram os homens, além disso a coloca como uma espécie de guia, responsável pela sobrevivência e cuidado de seu grupo. Aqui não podemos falar em essência, tal como em Platão, em busca da natureza, da verdade, da elevação, do bem, estamos na essência da vida, reduzidos à condição animal de luta pela sobrevivência e manutenção da vida. O prognóstico é pessimista, não se trata mais de elevar a condição humana às suas mais altas esferas, nada do super-homem de Nietzsche, mas antes de contemplar a humanidade em toda a sua indecência e baixeza.
"O que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à imagem do que eu precisar para dormir tranquila, e que os outros furtivamente fingirão que estamos todos certos e que nada há a fazer." (Clarice Lispector - Mineirinho)
Na época atual as grandes opções ideológicas quase não tomam parte na vida e mentalidade da maioria das pessoas, que não sentem a necessidade de contestar verdadeiramente o cenário político, ecônomico, cultural, o que seja. As preocupações voltam-se cada vez mais a se concentrar nas realizações pessoais de cada um, conseguir um bom emprego, comprar um carrinho, namorar, casar, em um caminho que acredita-se que leva à estabilidade e felicidade. Voltamo-nos a uma vida inteiramente privada, que não tem desdobramentos para fora e assim, perdemos não só a possibilidade de participar e realizar algo que tenha importância e permanência para o mundo, como passamos a perder a própria noção de um bem comum, de interesses comuns que vão além de nosso próprio umbigo.
Será que, um dia, seremos capazes de nos libertar das correntes que nos prendem a nosso mundo de sombras e aparências? Não falo nem em liberdade plena, em elevação da alma, mas, ao menos, poder contemplar, ou ainda, falar de coisas como o bem, a justiça, a verdade, sem ser ridicularizado, condenado e crucificado em praça pública? Ou, à exemplo da protagonista da série, permaneceremos eternamente em nosso mundinho privado, com nossos amigos, namorados, piadas e nosso sono tranquilo, com uma porta com cada vez mais trancas?
Juliana Brandão Lanfranchi é estudante de Letras.
Sobre Genialidade e Inteligência
Um belo dia, sou surpreendido por uma pergunta inerente a dois craques do futebol. Quem é melhor? Kaká ou Ronaldinho Gaúcho? Há três, quatro ou cinco anos, seria Ronaldinho na cabeça para todo mundo. Hoje é Kaká. Em 2007, diante da dúvida, respondi que achava um mais inteligente e o outro mais genial. "Cuma?" O mais genial menos inteligente que o menos genial? Como assim, Cara Pálida?
Pois é. Parece estranho, e eu mesmo achei. Pensei um pouco e vi que poderia ter razão. Para mim, Kaká – também gênio – era menos genial que Ronaldinho Gaúcho em campo, embora mais inteligente. Claro que é mera opinião de torcedor, subjetiva e questionável, mas a pulguinha que aquela resposta colocou em minha orelha não parava de morder. Até que ponto inteligência e genialidade são sinônimos? Há alguma diferença entre os dois?
No popular, gênio é um cara super inteligente e genialidade, inteligência em seus graus mais altos, ou seja, ambas compondo uma linha reta, onde uma culmina na outra. O Clube dos Especuladores de QI está sempre atribuindo números astronômicos a gênios do passado que jamais puderam fazer seu teste mágico de intelecto. Na prática, não faltam exemplos para contradizer esta máxima. O mais notório, talvez, seja o de Andy Warhol, artista plástico considerado precursor da pós-modernidade. Sua obra escancarou o vazio dos ícones da industrialização, quer produtos ou superestrelas, hoje referenciais do homem comum que nele estamparam sua banalidade. Este gênio anteviu nossa era há 40 anos, mas só fez 86 pontos num teste de QI, quatorze a menos do que Britney Spears e 39 a menos que George W. Bush. Tivesse vivido no século XIX, seu "QI hipotético" oscilaria entre 130 e 150 na mão dos especuladores.
O objetivo deste artigo não é discutir a valia do QI, e sim correlacionar nossas noções de genialidade e inteligência. Pertinentes ou não, tais testes partem de uma premissa mecânica do pensamento, que deve resolver problemas específicos com respostas pré-determinadas. A genialidade ocorre justamente quando os alicerces destes padrões são quebrados e uma nova resposta, ou uma rota surpreendente para uma resposta já conhecida, é descoberta ou inventada. Eis a provável fronteira entre uma coisa e outra.
A genialidade não opera em modulações, mas em saltos, ou o que chamamos de "insights", saídas inesperadas, criativamente inesperadas e fora do manual que a inteligência deveria seguir. Um Teste de QI não mede isso, por mais pontos que um candidato marque. Pode, no máximo, medir a genialidade de quem criou as perguntas. O insight pertence a outra ordem, que usa inteligência e lógica como instrumentos, mas que não É a inteligência. Na genialidade, o dom da criação é escancarado, como se Deus ou o "devir" assumisse o controle do homem, tornando-o ferramenta de uma vontade anterior onde a natureza expõe sua dominância.
Isso explica porque os chamados gênios são odiados e temidos no mesmo nível em que são cultuados. A inteligência tira vantagem de seu dom, caminha junto com ele, mas sabe que este aliado pode virar inimigo a qualquer instante. A sina do insight é desafiá-la, é chacoalhar seus postulados, reformulá-los, desenvolvê-los ou derrubá-los. Para a inteligência, o salto genial representa uma ameaça, pois visa provar que NADA É. Gera-lhe inveja quando flutua sobre os obstáculos que um grande problema impõe ao intelecto, e este se pergunta: "Como?"
Mas a chama da genialidade é traiçoeira, e nos momentos em que falha, quer por falta de inspiração, alarme falso ou outro motivo, a inteligência assume, justificando seus méritos. Vale ressaltar que esta relação tempestuosa não sucede só no plano externo, entre indivíduos, mas também no interno, entre facetas de um mesmo sujeito pensante.
Luiz Mendes Junior é formado em Comunicação Social. Ele escreve para a Revista Sina e o blog "notícias do front 3".
Falta tempo para pensar...
Mario Sergio Cortella - conhecido professor da PUC-SP, escritor e palestrante - costuma dizer em suas palestras que "o prático nem sempre é o certo". Denuncia aí a existência de um erro muito difundido na atual sociedade em que vivemos: a crença na idéia de que tudo o que é prático, por conseqüência, é necessariamente bom (ou de que a praticidade é justificativa para tudo). Essa concepção resulta diretamente do apressado ritmo de vida que hoje levamos nas grandes cidades. Trabalho, escola, curso de inglês, academia, contas para pagar, engarrafamentos etc. Em meio à toda essa existência corrida, quase não encontramos tempo para pensar sobre nossas próprias ações. Assim, substituímos o certo pelo prático - isto é, passamos a justificar algumas ações, muitas inclusive duvidosas no campo da ética, por sua praticidade. É muito mais prático entregar um trabalho de faculdade plagiado da internet do que realmente fazê-lo. É muito mais prático ler, para uma prova de Literatura na escola, um resumo de Macunaíma, do que encarar a obra na íntegra. É muito mais prático furar uma fila. É muito mais prático votar no político "mais simpático" do que procurar conhecer profundamente a história e as idéias de todos os candidatos de uma eleição. A era da velocidade têm nos tornado pessoas que usam o tempo - ou melhor, a falta dele - como desculpa para uma vida irrefletida, em que o urgente sempre acaba por tomar o lugar do importante. Mas será que, assim como dizia Sócrates (filósofo da Grécia antiga), "uma vida não refletida não merece ser vivida"?
Escravos do relógio. O surgimento do relógio mecânico simboliza o início da era moderna. Ele era a perfeita metáfora para o espírito mecanicista do século XVII. Os homens desta época ficaram maravilhados com tal invenção; tínhamos agora uma máquina, forjada num conjunto de peças, capaz de contar o tempo - criação humana. Isso levou pensadores da época, entre eles o filósofo francês René Descartes (imagem), considerado o pai da filosofia moderna, a pensar o próprio corpo humano como uma máquina. Nossos órgãos corresponderiam às peças do relógio mecânico. Tal argumentação pode ser encontrada na quinta parte do seu Discurso do Método. Descartes, como dualista que foi, concebia uma distinção entre corpo e alma (ou mente). O corpo seria justamente a nossa parte mecânica. A alma - ou a racionalidade - representaria a nossa parte autônoma, livre, capaz de operar independemente do corpo. Nas palavras do próprio filósofo, "não há nada que dominemos inteiramente a não ser nossos pensamentos". Descartes via uma superioridade da alma em relação ao corpo; se o homem, alma e corpo, foi capaz de criar o relógio, um "corpo" mecânico sem alma, não poder-se-ia concluir que o homem também fora criado por um ser em nível de perfeição superior ao da criatura? Por um ser como Deus, não portador de corpo e, conseqüentemente, isento de suas imperfeições? Especulações da filosofia cartesiana; encontramos pouco tempo para alimentarmos nossas almas com tais reflexões "vãs". Hoje, de certa maneira, nos tornamos máquinas submetidas ao relógio. Estamos, na balbúrdia da contemporaneidade, perdendo justamente aquilo que, segundo Descartes, nos faz seres humanos: nossa capacidade de pensar. O homem criou o relógio-máquina que, por sua vez, recriou o homem à sua imagem e semelhança, preso numa rota circular, tal como seus ponteiros. Somos, agora, escravos do relógio, da falta de tempo. Fica, como uma contraposição à esta lógica, a pertinente advertência do já falecido escritor brasileiro Caio Fernando Abreu: "... o tempo que temos, se estamos atentos, será sempre exato". O problema é que têm nos faltado justamente a atenção.
Rafael Issa é graduando em Filosofia na Universidade de São Paulo (USP) e formado em Comunicação Social pela Universidade Metodista de São Paulo (UMESP).
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